
Moça roliça, porém resoluta, Cátia Vanessa decidiu que não seria um qualquer mal-encarado que a impediria de voltar à liberdade na companhia do seu Bigodes, pelo que, surpreendentemente até para si própria, pregou uma valente lambada no indivíduo, semelhante às que fornecia aos clientes do Silva quando se faziam esquisitos para pagar a despesa, suficiente para que o marroquino, por um lado, perdesse 2 dentes e uma lente de contacto, mas por outro, ganhasse um hematoma tamanho familiar no olho esquerdo e uma contusão ao bater com a cabeça num bidon, que o colocou fora do caminho.
Os dois fugitivos escaparam dali o mais depressa que puderam e Cátia deu a mão a Parménides para que passassem o umbral da saída. Juvenal corou, mas até hoje não foi possível apurar se isso se deveu à experiência carnal ou à excitação da corrida. Já no exterior, olhando em ambos os sentidos, não viram Jack em lado nenhum.
De repente, surgindo a grande velocidade, uma carrinha frigorífica branca, com letras vermelhas na carroçaria a dizer “Talhos Dona Rosa-A Chicha Mais Saborosa”, tentou dobrar a esquina sob o protesto dos pneus, que guincharam no pavimento até o veículo se imobilizar à frente dos dois. A janela do condutor desceu e dentro da cabine surgiu a cabeça de Bauer, que gritou:
- Subam! Não temos tempo a perder!
Passageiros acomodados, de novo chiaram os pneus quando Bauer pisou o acelerador, a caminho da tasca.
- Onde é que arranjou este transporte? - perguntou Cátia Vanessa, segurando o seu gato enquanto deslizava no banco corrido, após mais uma curva brusca.
- Quando estava no armazém, vi passar o reboque da polícia com ela atrelada, pelos vistos estava mal estacionada, e percebi que estava aqui a nossa hipótese de salvar o Silva.
- Deixe-me ver se percebi, a polícia autuou um veículo, ía a rebocá-lo e você foi lá pedi-lo emprestado?!
- Disse-lhes que era um assunto de segurança nacional...e pedi por favor.
- E eles entregaram o veículo? - perguntou Parménides a caminho do enjoo.
Bauer olhou pelo retrovisor e vislumbrou dois grupos de sirenes que, lá ao fundo, ganhavam terreno na perseguição à carrinha frigorífica.
- ...uhn, não exactamente!
Calcou de novo o acelerador e atravessou em linha recta um cruzamento com a destreza de um condutor indiano na hora de ponta em Bombaim, a mesma destreza que os outros condutores não tiveram, pois ouviram-se várias travagens prolongadas que acabavam com o som de metal a bater.
- Ouçam,- disse Bauer conferindo novamente o retrovisor e verificando que já meia divisão policial seguia no seu encalço – esta carrinha tem a solução. Lá atrás temos vários quilos de moelas, temos a receita, portanto, podemos prepará-las para que cheguem à tasca precisamente ao meio dia, quando começar o evento!
- Preparar as moelas onde? Aqui dentro, não? - interrogou Cátia Vanessa.
- Sim. Não se preocupem, eu tenho um plano.
- Eu também tenho um plano... poupança-reforma, mas só lhe posso mexer aos 65 anos e quero lá chegar viva! É a ideia mais estapafúrdia que já ouvi na minha vida, e mesmo que fosse possível, como as iremos fazer? Pois se a receita é secreta, não é suposto que a possamos ler...
- Ouça, não sei se o Parménides sabe cozinhar ou não, mas eu não sei, portanto o futuro da tasca está nas suas mãos. E não se esqueça do seu papel nisto tudo...ninguém tem de saber, entende?...Eu só quero sossego, posso esquecer-me de contar ao Silva se tiver, digamos, alguém que me lave os cortinados uma vez por ano. O que me diz?
Vanessa meditou e no seu íntimo soube que era a oportunidade ideal para se redimir do apoio que tinha dado ao plano de Al Mufada.
- Ok, eu faço as moelas – assumiu, não sem sentir um nó na garganta, enquanto pegava no papel da receita das moelas à Silva, com o cuidado devido a uma relíquia bizantina.
Em breve, pela primeira vez, alguém fora da linhagem Silva desvendaria um segredo com anos de história, de mistério, de suor, lágrimas e dores de barriga, algo que muitos tinham tentado alcançar sem conseguir. O nervosismo e a responsabilidade fizeram-lhe tremer as mãos, quando Cátia começou a ler o papel:
- Ingredientes...
sábado, 31 de outubro de 2009
24 - Operação Moelas (IX)...sim, está quase...
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
Tasqueiros e bastonários
A propósito disto aqui, lembrei-me desta história:
Uma empresa entendeu que estava na hora de mudar o estilo de gestão e contratou um novo Director. Este veio determinado a agitar as bases e tornar a empresa mais produtiva.
No primeiro dia, acompanhado dos principais directores e coordenadores, fez uma inspecção a toda a empresa. No armazém todos estavam a trabalhar, mas um rapaz novo estava encostado à parede com as mãos nos bolsos.
Vendo aí uma boa oportunidade de demonstrar a sua nova filosofia de trabalho, o novo director geral perguntou ao rapaz:
- Quanto é que ganha por mês?
- Trezentos euros, porquê? - respondeu o rapaz sem saber do que se tratava.
O administrador tirou os EUR 300,00 do bolso e deu ao rapaz, dizendo:
- Aqui está o seu salário deste mês. Agora desapareça e não volte nunca mais! Esta empresa não tem lugar para si!
O rapaz guardou o dinheiro e saiu conforme as ordens recebidas.
O administrador, então, encheu o peito e, orgulhoso da atitude que serviria de exemplo, pergunta ao grupo de operários:
- Algum de vocês sabe o que este sujeito fazia aqui?
- Sim Senhor - responderam admirados os operários - Veio entregar uma pizza...
MORAL DA HISTÓRIA:
"Há pessoas que desejam tanto mandar, que se esquecem de pensar"
Servido por Bilgueits às 10:21 1 arrotos
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domingo, 11 de outubro de 2009
24 - Operação Moelas (VIII)

- Então – concluiu Bauer após ouvir as explicações de Cátia Vanessa – quer dizer que isto é uma questão de concorrência, não tem ligações políticas?
- Claro que tem ligações políticas, sr Bauer! - disse um indivíduo alto e moreno, saindo da penumbra, juntamente com dois capangas armados – Quem é que pensa que vai financiar toda a campanha de reeleição de Aníbal Silva? Não se iluda, sr Bauer, tudo na vida é política e o encerramento da tasca do Silva é apenas um meio para atingirmos os nossos fins, assim também glorificando Alá. Palavra de Saihd.
- Mas isso não é justo! - argumentou Parménides.
- Cala-te infiel! Justo é o elástico das cuecas da tua mãe impura.
Parménides pensou que o indivíduo estivesse a falar com alguém fora do seu campo de visão, pois ele não se chamava infiel e sua mãe era uma senhora de bem que usava cintas adelgaçantes e não cuecas apertadas.
Bauer tentou soltar uma das mãos e, ao tentar, deu com o bolso traseiro de Parménides, onde repousava um inocente corta-unhas, que nas mãos treinadas do ex-agente, em breve se transformaria numa horrível e eficiente máquina de morte. Jogando tudo na psicologia, segundo a escola de pensamento de José Mourinho, Bauer tentou ganhar tempo:
- E o plano do Sheik Al Mufada é?...
Orgulhoso por poder mostrar a sua superioridade aos ocidentais, Saihd sorriu com desdém:
- Digamos que o Sheik está seguro que o presidente Silva vai ganhar e que também está seguro que, depois da reunião intermediada pelo primo do presidente, este não se irá opôr a dar um parecer positivo à construção de um shopping nos terrenos, actualmente considerados zona verde, do jardim Arqº Carrapatoso, a partir do qual estenderá uma rede de franchising de restaurantes de caracóis, permitindo branquear outras receitas...
Inebriado pelo seu próprio relato, Saihd não reparou que Bauer tinha sacado o corta-unhas de Parménides. Também não reparou que a lâmina do instrumento tinha dilacerado a corda que lhe prendia os pulsos. Nem reparou que Bauer tinha desembainhado a lima das unhas e contraído os músculos, num momento de concentração que antecedeu a tempestade.
Quando reparou, foi tarde.
Foram não mais de 30 segundos, onde parecia que o mundo tinha parado a sua rotação e a vida interrompido o seu curso, à excepção dos rápidos movimentos de Jack Bauer que provavam a razão de Einstein dizer que espaço e tempo eram relativos. Em menos tempo que leva o Ronaldo a trocar de namorada, Jack jogou-se para a frente, rebolando sobre si mesmo e retirando as amarras que seguravam as suas pernas à cadeira. Com o balanço, jogou o assento contra a cara do rufia à sua frente, o qual caiu inanimado de encontro a um tanque de decantação de caracóis, o qual tombou directamente no pavimento vários litros de baba dos animais.
Impulsionando-se como uma mola, Bauer jogou o seu peso para a frente e deslizou sobre a baba como de fizesse body-board, apanhando desprevenido o segundo vigilante, ao cortar-lhe a veia jugular com a lima do corta-unhas ao mesmo tempo que caía sobre Saihd, com o seu punho esquerdo a estabelecer contacto directo com o maxilar direito do marroquino.
Após colocar o seu adversário nos braços de Morfeu, correu a libertar Cátia Vanessa, que fez o mesmo a Parménides.
- Vamos embora, - disse Jack, aproximando-se da janela e inspeccionando o exterior – Sahid tinha a receita no bolso do casaco, já a recuperei e não tarda nada teremos mais companhia.
- Eu não me vou embora sem o meu Bigodes! Ele está ali dentro. - disse a decidida Cátia, apontando para um pequeno gabinete do outro lado do armazém.
Nesse instante, algo no exterior prendeu a atenção de Bauer, e ele soube que teria de agir rápido.
- Ok. Vocês vão buscar o gato, mas despachem-se. Encontra-mo-nos lá fora. - Dito isto, correu para o exterior do armazém.
Cátia e Parménides, que não via tanta acção desde que mudara a última vez a água ao aquário do seu peixinho vermelho, correram entre bidons e caixas para não despertar a atenção dos trabalhadores que se viam ao fundo do armazém. A jovem entrou de rompante no gabinete escuro com cheiro a oregãos e com as paredes cobertas de calendários que fariam corar Parménides, se ele não estivesse ocupado a desembaciar os óculos.
Reavido o felino, que dormitava num sofá velho, os dois saíram do gabinete em passo acelerado, que foi prontamente interrompido por um monhé de ar ameaçador, que lhes cortou a passagem.
domingo, 4 de outubro de 2009
Nature Boy
Nature Boy é uma canção escrita pelo compositor George Aberle, também conhecido por "eden ahbez", e popularizada por Nat King Cole em 1948. Desde então tem conhecido inúmeras versões, quase todas elas marcadas pela sua mensagem singela e inocente: a maior coisa que podemos aprender é apenas amar e ser amado. Eis um magnífico exemplo de como as coisas simples resultam em música.
There was a boy
A very strange enchanted boy
They say he wandered very far, very far
Over land and sea
A little shy and sad of eye
But very wise was he
And then one day
A magic day he passed my way
And while we spoke of many things
Fools and kings
This he said to me
"The greatest thing you'll ever learn
Is just to love and be loved in return"
Nature Boy, Ella Fitzgerald e Joe Pass:
Nature Boy, Karolina Pasierbska:
Nature Boy, James Last e Chuck Findley (trompete):
Servido por EB às 11:21 0 arrotos
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sábado, 26 de setembro de 2009
Temp(l)o de reflexão
A Tasca do Silva, sempre atenta às necessidades dos seus estimados clientes, decidiu inaugurar um espaço adequado ao dia de hoje, onde o freguês poderá, de uma forma calma e ponderada, meditar mais aprofundadamente sobre a escolha que deverá fazer amanhã.
Sendo este estabelecimento modesto e de dimensões exíguas, não se admirem caso o dito espaço tenha odores menos agradáveis, uma vez que também se destina à clientela que o usa exclusivamente para a defecação. A estes últimos, a gerência desde já agradece o favor de não se enganarem no rolo.
domingo, 13 de setembro de 2009
24 - Operação Moelas (VII)

O sol raiava já pelas altas janelas do armazém quando Parménides acordou, despertando com um travo amargo na boca semelhante àquele que lhe deixava o seu mata-bicho habitual carregado de testosterona – uma malga de Farinha 33.
Deu por si sentado numa cadeira, com as pernas amarradas aos pés desta e as mãos atadas ao encosto, sentindo um volume atrás de si.
- Sr Jack? Sr Jack, está aí?
- O Jack ainda está desmaiado, Parménides.
O jovem teve um aperto no coração, quando percebeu que estava a ouvir a voz de Cátia Vanessa!
* * *
- Meu S. Gregório, isto é terrível, uma tragédia, um drama, - o Silva andava de um lado para o outro do balcão, com as mãos na cabeça – um cataclismo, um drama... ah, não, esta já disse... eu não posso ficar de braços cruzados, eu não posso assistir ao fim da tasca sem nada tentar...
- Porque não experimenta fazer as moelas sem receita? - avançou o inspector Agostinho.
- Porque esta receita, inspector, é mais do que uma receita, é uma herança de família, tem passado de pai para filho desde que foi inventada pelo meu pai, possui fórmulas de delicado equilíbrio de ingredientes demasiado elaboradas para eu as saber de cor.
- Que história é essa? - perguntou Bauer, entretanto desperto.
- A verdade é que ninguém imagina os lucros fabulosos que o comércio de caracóis traz a quem domina o negócio. Os animais são comprados a € 0,80 o quilo e importados às toneladas para o mercado português, onde chegam às mesas dos cafés a um preço 16 vezes superior. O Sheik Al Mufada controla uma poderosa organização, sr Bauer, tem olhos e ouvidos em toda a parte e domina o mercado com mão de ferro, não admitindo que negócios como o da tasca do Silva lhe façam concorrência nos petiscos com uma receita de moelas.
- Mas o sr. Silva é tão simpático, coitado! - gemeu Parménides.
- Depois da organização ter raptado o Bigodes, o meu gato persa... – disse Cátia com lágrimas nos olhos – Eles ameaçaram capar o meu pobre bichano e não tive outra opção...
- Mesmo correndo o risco de levar o Silva à falência? - perguntou Bauer.
- Eu não podia fazer nada... e não pude suportar o sofrimento do Bigodes. Eu pensava que, no fim, mesmo que eu fosse despedida, poderia ganhar dinheiro alugando o Bigodes para inseminação, ele tem pedigree... Afinal, enganei-me, e agora querem também ver-se livres de mim! Estou tão arrependida...
Na sede do PITA:
- Tô? Silva? Tá tudo a andar, né? Claro, nem é preciso perguntar, o dr Aníbal faz questão de te cumprimentar em público para as fotos, já viste a publicidade, âhn?! O quê? Se podes servir peixinhos da horta? Mas que raio de conversa é essa, ó Silva?! Isso não pode ser, pah! As moelas têm uma imagem de força política que não se pode desperdiçar!... Agora cá peixinhos da horta... além do nome ser um bocado panilhas, isso remete para horta, não diz nada aos nossos eleitores, aqui ninguém tem hortas. Vamos lá a atinar, ó Silva, que isto não pode falhar, sabes que o dr. Silva quase que ia sendo agredido na última manifestação do 1.º de Maio... quer dizer, não foi bem agredido, mas ainda lhe vieram as lágrimas aos olhos... sim, tá bem, só chorou de um olho... bom, a bem dizer foi apenas um cisco...
domingo, 6 de setembro de 2009
Cardápio eleitoral da Tasca do Silva
Vale a pena ler e analisar com atenção os programas eleitorais dos partidos políticos. Eles são fonte inesgotável de ensinamentos que podemos utilizar em diversas situações, elevando substancialmente o nível do discurso e das práticas. Aqui na Tasca, por exemplo, os programas eleitorais estão a ser usados para renovar o atendimento. E esta acção começa já a dar frutos que nos parecem muito interessantes.
Eis um exemplo gravado em áudio na passada sexta-feira, quando entrou o primeiro cliente do dia, eram onze horas e cinquenta e dois minutos:
- Bom dia, já se pode almoçar?
- Ali no restaurante em frente ainda não pode almoçar, mas aqui sim.
- E que tem hoje que se coma?
- Garantimos a efectiva confecção de diversos alimentos, de forma a poder satisfazer as suas mais exigentes necessidades alimentares.
- E o que tem pronto a sair?
- Providenciamos uma vasta selecção de pratos tendo em vista vários regimes alimentares.
- Sim, mas diga-me alguns…
- Providenciaremos não apenas alguns e faremos um esforço para acompanhar os seus pedidos, seja qual for o prato que queira.
- E que pratos tem?
- As nossas propostas são ambiciosas, mas realistas.
- Por exemplo?
- Acompanhamos com especial atenção os PME, os pequenos e médios estômagos. Os micro e PME portugueses são parte essencial da sustentação dos sectores mais modernos e dinâmicos da gastronomia.
- Não é o meu caso, eu gosto de comer bem, em quantidade.
- Privilegiamos não só a quantidade, mas também a qualidade, tendo para isso feito um programa de modernização de toda a cozinha.
- Ok, traga-me a lista…
- As nossas prioridades não estão centradas em listas mas sim no reforço de um serviço inovador…
- Desculpe, não estou a perceber, afinal tem ou não algo que se coma?
- Os nossos objectivos não se confinam à comida, garantimos também um apoio completo à bebida.
- Isto é que é uma gaita! Olhe, acha que devo comer aqui ou no restaurante do outro lado da rua?
- Reforçaremos os mecanismos para criar condições que permitam ajudá-lo a tomar a decisão mais conveniente nessa matéria. Já comparou os nossos pratos com os do restaurante concorrente?
- Ainda não. Que pratos têm aqui, afinal?
- Os nossos pratos renovam a ambição de garantir uma competitividade sustentável assegurada por uma transversalidade de funções consolidadas no quadro de uma vasta…
- Desculpe, já não aguento mais e estou cheio de fome. Traga-me um bife grelhado com legumes cozidos.
- E para beber?
- Uma cerveja preta.
- Os seus desejos são ordens. Iremos trabalhar afincadamente para satisfazer o seu pedido nos próximos quatro anos.
sábado, 5 de setembro de 2009
Arroz xau-xau
Fazendo jus ao nome deste blogue, coisa que talvez nunca o tenha feito, porque sempre tentei guarnecê-lo com outro tipo de receitas – aquelas que acabamos por digerir todos os dias, mas que não vão parar propriamente ao estômago mas a outras partes do nosso organismo, partes essas que nem qualquer um possui, ou desconhece possuir, caso mais frequente este último, ou não vivêssemos numa sociedade sofredora de letargia cerebral – hoje decidi finalmente acatar o espírito tasqueiro e, assim, tentar surpreendê-los com um prato cujas iguarias vão fazê-los transportar por uma viagem que bem pode começar, caso sofram de falsas expectativas, num belo arroz de grelos, e acabar, caso caiam na realidade, num daqueles pratos culinários todos pipis, mas que na prática não nos alimentam convenientemente, aqueles a que agora fica bem apelidar de “gourmet”. A ver vamos.
Se há coisa que os meus Pais me ensinaram, ou não fossem eles pessoas oriundas de famílias de fracos recursos, foi a de que devemos tentar gostar um bocadinho de tudo, pois nem sempre havia a possibilidade de comermos aquilo de que realmente gostávamos. Bem sei o porquê de nos tentarem incutir tais valores, pois eles eram de outros tempos – os tempos em que era necessário ter estômago para tudo e mais alguma coisa, pois, pensavam eles, era preferível comer algo a ter a barriga constantemente a dar horas!
Pois bem, meus amigos, para quem não me conhece, esta é a altura ideal para desistirem da leitura deste post e talvez passarem para um qualquer blogue que se dedique à trica politico-partidária… ou talvez não, fica ao vosso critério, mas depois não digam que não vos avisei e que sou sempre o mesmo destroça corações.
Para os que ficaram, aqui fica uma receita que me recuso cozinhar, muito menos digerir:
- Arroz “alfinetada”;
- Ovos debaixo dos braços q.b.;
- 120 g de pseudo-jornalistas, que mais não são do que paus mandados de um lobby qualquer;
- 250 g de carne de “aves de rapina”;
- 150 g de carne de porca política;
- 100 g de gente que não se importa de ser afiambrada, desde que os meios justifiquem os fins;
- Nozes dos dedos picadas, de tantos murros se dar na própria dignidade;
- Sal e pimenta ao gosto de cada um;
- Água à medida daquilo que se quer “alagar”;
- Salsa (ou outro tipo de dança, principalmente aquela, a de cadeiras).
Queridos e amados Pais, por muito que eu goste de vós, que gosto, bem o sabeis, prefiro alimentar-me de outras coisas, nomeadamente as que me façam crescer como pessoa, em detrimento daquelas que só servem para encher o band(a)ulho… ou então morro orgulhosamente à fome.
Beijos, abraços… e xau-xau!
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
24 - Operação Moelas (VI)

Parménides contemplava ainda, com mágoa, a garrafa de tinto que jazia quebrada no chão, quando Bauer lhe pegou pelo braço e literalmente o arrastou procurando um veículo que lhe permitisse não perder o rasto do atirador. Providencialmente, a solução surgiu estacionada junto ao quiosque do parque, um Aixam branco, também conhecido por “mata-velhos” ou “papa-reformas”, mas que para Bauer era o veículo ideal, potente porém discreto, audaz todavia seguro. Um vidro quebrado e o assunto resolveu-se.
O sol descia no horizonte quando o Aixam ultrapassou as fronteiras do bairro, levando no seu interior um Parménides angustiado com o pensamento em sua mãe que, àquela hora, tricotava sem parar uma nova camisola de lã para o seu filho, aguardando, sem noção do tempo, pela garrafa de tinto que não iria chegar a tempo do coelho à caçador. A angústia do jovem herói era adensada pelo facto de estar cada vez mais longe do seu habitat, aumentando o risco de se perder, ao contrário de Paulo Portas quando abandona a liderança do CDS-PP, que acaba sempre por encontrar o caminho de volta para o Largo do Caldas.
Subitamente, o Aixam estacou numa esquina. 500m mais à frente, a Piaggio estacionou junto de uns grandes armazéns. O sujeito olhou em redor, certificando-se que não era seguido e apressou-se a entrar no edifício por uma porta lateral. O telemóvel de Bauer tocou e ele pô-lo em alta-voz.
- Jack? - era a voz do inspector Agostinho – surgiu aqui uma coisa estranha na análise de ADN da baba do caracol, que revelou características de uma espécie em concreto, Gros-Gris, ou Helix Aspersa Maxima . Estes caracóis são importados de Marrocos e distribuídos no nosso país em exclusivo pela Caracolex, empresa registada em nome de Amin Al Moufada.
- Então, ouve-me isto, - respondeu Bauer – estamos nos armazéns da Caracolex, em perseguição de um suspeito que se escondeu no edifício e eu vou ter de lá entrar. Consegues arranjar-me a planta do edifício?
- Sim, - respondeu o inspector após uns instantes de silêncio - já a estou a ver no meu monitor.
- Manda-me para o meu i-phone!
- Não dá, Jack. Aqui na tasca só há ligação dial-up e o Silva paga a Internet ao minuto. O ficheiro tem mais de 50 Mb, isto leva uma eternidade...espera! Tive uma ideia, vou imprimir isto tudo e envio-te por estafeta. Até já.
Bauer olhou para o relógio. Não havia tempo a perder e a sua missão era recuperar a receita das moelas, custasse o que custasse, e enquanto não a concluísse com sucesso, corpo e mente não descansariam um segundo.
- Cobre-me! - disse Bauer para Parménides, enquanto corria para fora do carro, curvado, em direcção aos armazéns da Caracolex. Parménides achou estranho que Jack já estivesse com frio, mas como gostava de cumprir o que lhe pediam, principiou logo a tirar o seu casaco de lã merino para o emprestar a Bauer, pelo que estranhou que ele tivesse saído do carro para ir correr.
- Deve estar mesmo com frio! - pensou Parménides, que decidiu ir atrás do agente.
Os dois chegaram à porta lateral do armazém, Bauer olhou em volta e entrou sorrateiramente, logo seguido por Parménides Juvenal. À esquerda, havia uma escada de metal, da qual Bauer galgou os degraus dois a dois, alcançando um patamar que lhe dava a visão geral do espaço abaixo – filas e filas de caixotes perfurados, cobertos de rede, esperavam o momento da expedição. Aqui e ali, empilhadoras circulavam transportando volumes de um lado para outro.
Tendo acabado o seu último novelo de lã verde-alface, a mãe de Parménides olhou para o relógio e inquietou-se com o tardar da sua encomenda para o jantar. Esperou que o filho não tivesse tido outro azar como da vez em que ficara com a braguilha trilhada na boca de incêndio (uma longa história). Pelo sim, pelo não, resolveu ligar-lhe para o telemóvel.
Bauer reparou num grupo de indivíduos que conversavam numa zona mais isolada do complexo. Entre eles, reconheceu o atirador furtivo. Voltou-se para Parménides colocando o indicador sobre os lábios e caminhou pela galeria metálica por forma a ficar mais perto do grupo e ouvir o que diziam.
- الجامعة العربية Moufada انتظار معرفة انباء عن ذويهم على وجه الاستعجال ، وعدم السماح لمزيد من التأخير في الخطة . (* em português: Al Moufada aguardar notícias com urgência e não admitir mais atrasos no plano.)
- Saihd للراحة. وباختصار ، والمخدرات ، والبنادق ، والملاهي ، لن يكون أكثر من الفول السوداني لهذه الأعمال. (* Saihd poder descansar. Em breve, drogas, armas, casinos não serão mais que amendoins perante este negócio.)
Subitamente, Jack ouviu atrás de si uma melodia vagamente familiar.
“Abram alas para o Noddy! Noddy! Com a buzina a tocar...”
Virou-se e viu Parménides atrapalhado com o seu telemóvel, que tocava e vibrava intensamente, surgindo no visor, com intermitências, a palavra “mãe”. Antes que se pudessem aperceber, estavam ambos cercados, manietados e, após uma súbita dor de cabeça, começaram a notar que o mundo à sua volta ficava cada vez mais negro, até que as luzes se apagaram por completo.
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
A Mãe Natureza tem destas coisas

(Acabadinhos de serem "colhidos" do quintal do Silva! Lembra-me aquele "trava línguas" que aprendi em pequeno, quando me pediam para dizer, repetidas vezes e muito mas muito depressa, a frase: "Fui ao mar colhi cordões, vim do mar cordões colhi")
Servido por Bilgueits às 12:09 0 arrotos
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domingo, 2 de agosto de 2009
O que não lhe consegui esconder
Aprecio o ritual, como se o estivesse a ver pela primeira vez. Cada pormenor desperta em mim a curiosidade, uma ponte na imaginação infantil. Aquele pincel igualmente grande e pequeno, diferente dos que uso nas pinturas, e que costumo noutras alturas retirar da prateleira para brincar, neste momento encontra-se, uma vez mais, energicamente a criar uma espuma branca imensa no seu rosto. De seguida um objecto em forma de T passa com movimentos delicados e precisos, fazendo descobrir a pele por baixo da espuma.
Numa das idas à casa de banho reparo naquele objecto em forma de T, analiso-o tentando entender a sua função. Existe alguma sujidade retida na pequena ranhura superior, e num acto impensado deslizo o dedo indicador para a tentar retirar. Sinto dor, e de imediato surge uma gota enorme de sangue, que rapidamente é seguida de outra, e outra e a sequência torna-se rápida e interminável. Deixo cair o objecto no lavatório ensanguentado e fujo daquele local, daquela situação. Saio a correr para a sala e sinto a minha mãe vir atrás. “O que aconteceu?”, pergunta, enquanto procuro esconder a mão nas costas, sentindo o dedo quente, inchado, a latejar. “Nada!” respondo, tentando disfarçar o meu desconforto. Reparo nas manchas de pingos pelo chão e no olhar da minha mãe na minha direcção, mas sem ser para mim: para o que estaria no chão perto de mim.
Sinto-me aliviada pela sua presença, por ter percebido o que aconteceu. Porque ela tem sempre solução para o que desconheço.
Servido por Anônimo às 19:30 1 arrotos
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sábado, 1 de agosto de 2009
O que nunca lhe contei
Dois pequenos buracos na parede despertam-me a curiosidade. O que estará do outro lado? Procuro em volta e descubro um pequeno ferro. A tentação é forte demais para conseguir resistir. Mesmo à medida! Exploro, faço girar o pequeno ferro dentro de um dos orifícios da parede, mas nada de novo. Tento então retirar o ferro mas este não cede. O pânico começa a gerar-se, recordo que a minha mãe está mesmo na sala ao lado, entretida com os seus arranjos de costura, penso que fiz algo de muito errado ao brincar com aqueles orifícios na parede, e num último impulso de medo puxo com toda a força o ferro encravado. Sinto um esticão, um formigar intenso a percorrer-me o corpo e desato num choro inconsolável, não sei se pelo susto do que acabo de sentir, se pelo medo da reprimenda da minha mãe. Ela num sobressalto corre para mim, abraça-me e procura saber porque choro. Coloca-me no seu colo, procurando que me acalme e lhe conte o que aconteceu. Eu não conto. Limito-me a soluçar e a esperar que ela não me castigue. Ela não insiste em querer saber o que aconteceu, apenas em que eu finalmente me acalme e pare de chorar. Consola-se por terminar mais uma choradeira sem motivo, eu consolo-me por ter escapado da reprimenda, e ainda ter tido direito a tanto mimo…
Servido por Anônimo às 08:55 0 arrotos
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domingo, 19 de julho de 2009
24 - Operação Moelas (V)

A dúvida corroía o pensamento de Bauer, com a estranha sensação de que o grupo de meliantes antecipara os seus movimentos. Em passadas largas, atravessou o jardim no encalço dos 3 homens que, como que adivinhando-lhe as intenções, começaram a correr cada um para seu lado.
Entre os canteiros de buganvíleas e hortênsias, os pequenos lagos com peixes vermelhos e os talhões de arbustos, desenhava-se um jogo de gato e rato semelhante a tantos outros que Parménides tinha jogado no recreio da sua infância e que tantas memórias lhe traziam, pelo que decidiu, resguardando a integridade da garrafa de tinto que trazia debaixo do braço, entrar na corrida. Contudo, um jogo de apanhada no jardim apresenta outro género de obstáculos que não existem num pátio de escola, pelo que Parménides não contava que os seus suspensórios ficassem presos num galho de buxo, o que fez com que uma força invisível lhe arrepanhasse as cuecas e o atirasse para trás, com violência, indo embater num dos vilões que, acto contínuo, se desequilibrou contra um dos lagos de cimento, embatendo com a cabeça no rebordo e desfalecendo de imediato. A força elástica dos suspensórios de Parménides foi ainda suficiente para que a garrafa de tinto se soltasse dos seus bracitos inocentes, voando cerca de 10 metros e atingindo em cheio, por trás, Mohamed, que caiu na gravilha do jardim.
Na outra ponta do espaço verde, Bauer ganhava terreno sobre Achmed, revelando especial habilidade para tornear canteiros de hortênsias. Retesando os músculos, o ex-agente saltou em frente conseguindo jogar as mãos ao pescoço do fugitivo, derrubando-o com o seu peso. Num rápido e bem treinado movimento, prendeu-lhe as mãos atrás das costas e forçou o joelho contra o peito de Achmed.
- Fala, meu sacana, onde está a receita das moelas?
- Muito tarde, infiel. Receita muito longe por estafeta.
- Para quem é que trabalhas? - gritou-lhe Bauer – Quem é que atacou a tasca do Silva? Fala, sacana, ou nem sabes o que te faço.
- Achmed não saber que estás a falar. - O indivíduo sorriu levemente.
- Posso fazer o teu corpo doer de formas que tu nem imaginas!
- Apenas Alá pode punir quem não cumpre os seus desígnios.
Face à urgência da situação, Bauer reviu mentalmente numa fracção de segundo todas as técnicas de persuasão possíveis de aplicar naquele instante e decidiu-se por aquela referida nos manuais dos serviços secretos como “Depila Dor”. Desumana, mas eficaz.
Rasgando a camisa de Achmed, tirou de um dos bolsos do seu colete uma tira de cera depiladora a frio, que aplicou sobre o peito do adversário. Com um sorriso cínico, Bauer deu um puxão brusco no autocolante, que arrancou um punhado de pêlos peitorais e, ao mesmo tempo, um grito de horror das profundezas da alma de Achmed. Felizmente, pensou Jack, a convenção de Genebra estava fora de questão naquele momento.
- Ok, ok, eu contar tudo!... - disse Achmed com dificuldade, de voz embargada e olhos rasos de lágrimas – eu contar, eu contar...
- Desembucha de uma vez. Onde está a receita das moelas?
- A receita está...
Ouviu-se um som forte e seco e a revelação morreu-lhe a meio da garganta, coincidindo com a sua própria morte, já que do outro lado do parque, tinha vindo a certidão de óbito sob a forma de uma bala, saída da carabina ainda fumegante de um snipper que, ao ver Bauer a olhar para si, largou a arma e fugiu a toda a velocidade numa Piaggio vermelha.
quarta-feira, 15 de julho de 2009
Massa com brócolos e presunto
Prato frio, ideal para os calores do Verão, cheio de cores e sabores.
Cozer massa tipo penne (ou outra) em água e sal. Passar bem por água fria e deixar arrefecer.
Num recipiente fechado (ou coberto com película aderente), levar alguns minutos ao micro-ondas brócolos cortados em pedaços pequenos até ficarem cozidos, mas ainda um pouco duros. O tempo de cozedura depende da quantidade, por isso convém ir experimentando períodos curtos de cozedura. Deixar arrefecer.
Cortar em metades alguns tomates-cereja. Cortar queijo mozzarella em pedaços. Cortar presunto em pequenos pedaços.
Cortar finamente algumas folhas de mangericão. Fazer um molho juntando sal, pimenta, alho esmagado, vinagre balsâmico e azeite (para quatro pessoas, cerca de 2 colheres de sopa de vinagre e 4 de azeite).
Misturar todos os ingredientes.
sexta-feira, 10 de julho de 2009
Vertigens escondidas, risos ingénuos
A viagem está marcada para o dia seguinte, o que me deixa com uma ansiedade e um friozinho no estômago gostoso de sentir. É bom atravessar a fronteira, ir para um país estrangeiro, atravessarmos o rio e sentir que partimos para um mundo diferente. Apesar de, ao lá chegarmos, me parecer tudo tão igual ao que existe nesta margem onde nos encontramos. Talvez o cheiro do ar, das coisas, seja diferente. O que importa é o entusiasmo e as sensações que provocam cada nova ida a um país diferente do nosso.
A ponte que separa as duas margens, é estreita, de ferro e antiga, e estremece a cada passagem de um carro, obrigado a reduzir a velocidade, e a esperar a sua vez de avançar. Nas laterais exteriores da ponte existem umas estreitas passagens para peões, e são estas o motivo da minha angústia momentânea. Quando vamos de carro não me incomoda. Mas nunca ninguém me perguntou se a preferia atravessar a pé ou de carro. Embora a minha resposta a essa possível pergunta fosse a indiferença. Não pretenderia manifestar o meu medo de a atravessar a pé.
Avançamos numa caminhada lenta para a ponte, e já começo a sentir incómodo. Mal coloco o pé naquele chão feito de uma fina grade de ferro, que mostra claramente em baixo a água que corre no rio, sinto-me perder a noção de equilíbrio, como se me fosse afundar num abismo, como se o meu estômago saísse pela boca. Tento respirar fundo, o peito não corresponde, olho para cima, procuro ignorar a imagem que passa por baixo dos meus pés, apetece-me fechar os olhos, mas mantenho-os alerta para o trajecto na minha frente. Procuro rezas que me distraiam o pensamento, que me dêem força. Choro por dentro cada segundo que me parece não ter fim. E mantenho a postura de quem nada teme. Ninguém se apercebe do meu mal-estar. Morro de medo por dentro, e espero que ninguém dê por isso.
O alívio de chegar a chão firme é depressa ultrapassado pela sensação de estar num país diferente. Tento sentir este novo sítio, aperceber-me do que terá de diferente. Os passeios por onde caminhamos são feitos de placas de cimento em vez de calçada, acho piada, acho feio, mas encanta-me ser diferente, ser feio. Tudo me parece estranhamente diferente e igual. Reparo numa mosca que poisa. É diferente, colorida, é grande. Nunca tinha visto uma assim.
No regresso enfrento novamente a travessia da ponte, anseio sentir o medo, receio sentir o mal-estar, mas desta vez o trajecto parece-me mais curto, mais fácil, sinto que ganhei confiança, sinto que perdi algo também (embora não perceba bem porque me incomoda essa perda).
Descansamos num banco de jardim, quando vejo uma mosca igual à outra, grande, diferente, e entusiasmada com a descoberta exclamo: “Olhem, uma mosca estrangeira aqui!” Todos se riem, e eu sorrio. É bom quando consigo fazer os adultos rirem, mesmo sem entender de imediato como o consegui.
Servido por Anônimo às 23:25 1 arrotos
Etiquetas: Pingas perfeitas
domingo, 5 de julho de 2009
24 - Operação Moelas (IV)

Junto à fonte central do jardim arqº Carrapatoso, dois indivíduos vestidos de negro aguardavam ansiosamente que o terceiro desligasse a chamada telefónica que estava a receber. Do autocarro 27 continuava a não haver sinal, mas após terminar a chamada, o sujeito do telefone fez perceber claramente que o grupo teria de sair dali com urgência.
- لا بد لنا من الفرار. كل رجل لنفسه ، نحن في مرحلة (*em português: Temos de fugir. Cada um por si, encontramo-nos no ponto alfa.)
Do outro lado da praceta, Jack Bauer encostado à esquina espiava a movimentação dos 3 homens suspeitos, enquanto ligava para a “tasca-force”.
- Aqui, Jack, escuto.
- ...desculpe, deve ser engano. - ouviu-se a voz do inspector do outro lado da linha – Eu não conheço nenhum Jack Escuto!
- Bolas, Agostinho! Sou eu, Jack. Escuto.
- Já lhe disse que deve ser engano, não conheço nenhum Jack Escuto e faça o favor de me desimpedir a linha, que preciso de falar com o meu amigo Jack Bauer.
- Eu sou o Bauer! Over. - rangeu Jack entredentes, amaldiçoando uma vez mais ter entrado naquela missão liderada por civis imbecis sem experiência de operações de campo, onde a vida e a morte se jogavam numa fracção de segundo.
- Bauer Over?! Elá, agora já é outro?? Ó diabo, temos aqui linhas cruzadas, queres ver?...
- Agostinho, ouve-me! Se queres que te volte a tirar o calcário da máquina, tens de colaborar.
- Jack!! Porque não disseste que eras tu?...Olha, já descobrimos a substância viscosa que estava no chão da tasca : baba de caracol!
- Baba?! - Bauer trocou olhares com Parménides, que por momentos pensou que o agente se estava a referir a algo que lhe caía dos cantos da boca, pelo que tratou de puxar o lenço monogramado que sua mãe lhe oferecera no 30º aniversário e com ele secou os lábios.
- Como diabo aparece um rasto de baba de caracol?
- ...por causa dos caracóis?...
- Bom. Seguimos o rasto que parece levar a um grupo de indivíduos estranhos que estão aqui no jardim...
- Os terroristas estão a ir-se embora! - interrompeu Parménides, apontando para o jardim.
- Não deves julgar ninguém pelo seu aspecto! - Bauer desligou a chamada – Se toda a gente pensasse assim, poderiam, por exemplo, olhar para ti e dizer que tens um pénis minúsculo.
Durante breves segundos, Parménides Juvenal não mexeu um único músculo facial, mas depois voltou a sublinhar, incisivo, directo e conciso, como era seu timbre habitual.
- Os terroristas estão a ir-se embora!