ALGURES NO BAIRRO
SÁBADO – 21H29
Nessa mesma noite, e receando que o desgosto que ainda consumia o seu filho pela perda do animal de estimação o levasse a cometer loucuras como chegar a casa depois da dez da noite, a mãe de Parménides acompanhou-o na sua saída nocturna para levar o lixo ao ecoponto, nas traseiras da Tasca.
Secretamente, Parménides ansiava por encontrar de novo aquele ser luminescente como forma de restabelecer a confiança da sua mãe na sua palavra, embora também soubesse que tal encontro imediato elevava as probabilidades do terminal do seu aparelho urinário deixar de vedar. A separação do lixo decorreu sem novidades, a não ser que o contentor amarelo estava cheio já não levando a última lata de conserva, que ficou do lado de fora. A noite estava fria e a respiração provocava pequenas nuvens de vapor à saída do nariz.
A rua estava deserta... mas nada aconteceu.
Parménides e sua mãe já dobravam a esquina no regresso quando um barulho metálico violento os fez olhar instintivamente para trás. E ficou provado que o jovem não mentira. Um vulto de luminescência verde tinha tropeçado na lata de sardinhas de conserva junto ao ecoponto amarelo, indo embater de cabeça no pilhão adjacente, derrubando-o, e soltando uma interjeição imperceptível, qualquer coisa como “não-sei-quê-dassss”!
Assustado por perceber que tinha sido descoberto, o vulto fugiu de vista, coxeando entre os caixotes de papelão que atravancavam o passeio, fruto da nova remessa de presuntos serranos que o Silva encomendara para o seu estabelecimento.
- Meu filho, eu devia ter acreditado nos teus olhos!
- Mas já não é preciso, mãe! - disse Parménides, contente por ter provado a sua razão e pelo comportamento meritório do seu aparelho urinário – Temos outro tipo de provas.
E dito isto, apontou para a câmara de vigilância instalada pelo Silva. Escusado será dizer que, em agradecimento pela remoção do psicótico engraxador da frente da loja, o Silva lhe facultou as gravações de vídeo daquela noite a título gratuito, o que constituiu uma liberalidade não declarada para efeitos de imposto do selo.
Como forma de repor a integralidade da honra do seu filho, que nunca fora grande coisa desde que fora apanhado completamente vestido no balneário das colegas do preparatório enquanto estas tomavam banho, a mãe de Parménides forneceu as imagens ao jornalista da “Dica da Semana”, que na edição seguinte titulava “Homem verde destrói reciclagem – uma contradição ecológica?”. A tiragem foi insuficiente para a procura e em menos tempo que leva Marcelo Rebelo de Sousa a ler um livro, todo o bairro soube da história.
E nessa noite, em todos os cantos escuros da rua das traseiras da tasca, em todas as zonas de penumbra, em todas as sombras de candeeiros, estava alguém aguardando a chegada de Parménides Juvenal, do seu lixo e dos homens verdes.
sábado, 28 de fevereiro de 2009
THE T-FILES – Encontros Imediatos Do Grau Esquisito (IV)
terça-feira, 24 de fevereiro de 2009
Um doce tormento
Uma das melodias mais bonitas que eu conheço foi escrita pelo compositor Claudio Monteverdi (1567-1643). É também uma belíssima canção sobre o clássico amor não correspondido. Andam por aí várias versões, mas eu gosto particularmente desta:
Si dolce è 'l tormento
Ch'in seno mi sta,
Ch'io vivo contento
Per cruda beltà.
Nel ciel di bellezza
S'accreschi fierezza
Et manchi pietà:
Che sempre qual scoglio
All'onda d'orgoglio
Mia fede sarà.
La speme fallace
Rivolgam' il piè.
Diletto ne pace
Non scendano a me.
E l'empia ch'adoro
Mi nieghi ristoro
Di buona mercè:
Tra doglia infinita,
Tra speme tradita
Vivrà la mia fè.
Per foco e per gelo
Riposo non hò.
Nel porto del Cielo
Riposo haverò.
Se colpo mortale
Con rigido strale
Il cor m'impiagò,
Cangiando mia sorte
Col dardo di morte
Il cor sanerò.
Se fiamma d'amore
Già mai non sentì
Quel riggido core
Ch'il cor mi rapì,
Se nega pietate
La cruda beltate
Che l'alma invaghì:
Ben fia che dolente,
Pentita e languente
Sospirimi un dì.
Claudio Monteverdi
Si dolce è 'l tormento
Accordone com Marco Beasley (voz) - La Bella Noeva
Alpha, 2003
Servido por EB às 22:38 2 arrotos
Etiquetas: Fados e guitarradas
domingo, 22 de fevereiro de 2009
Salada de tomate
O meu amigo Norberto, Deus o tenha em descanso eterno depois de um trágico acidente que o levou, ainda novo, deste mundo, detestava tomates. Um dia, vítima de uma emboscada na guerra colonial, teve de passar várias horas abrigado do inimigo sem que tivesse quaisquer mantimentos. Ao fim de algum tempo a fome começou a apertar. E como havia ali mesmo ao lado um tomatal, o pelotão, muito naturalmente, atacou os tomates.
Norberto resistiu, pois tomates não era comida que entrasse na sua boca. Mas, ao fim de angustiosas horas de jejum, a fome venceu. E a partir desse dia o meu amigo passou a ver os tomates com outros olhos. Ou melhor, com outra boca. O solanum lycopersicum tinha ganho mais um adepto.
Para quem não gosta de salada de tomate, não é necessário ir à guerra para passar a gostar. Basta experimentar esta receita:
Num escorredor, colocar tomates às rodelas, se possível de diferentes cores e estados de maturação. Acrescentar também alguns tomates-cereja inteiros. Temperar com sal grosso e deixar escorrer durante 20 minutos, mexendo de vez em quando.
Colocar os tomates numa saladeira e polvilhar generosamente com orégãos. Juntar um dente de alho esmagado em puré (usar utensílio próprio ou um raspador), malagueta vermelha cortada finamente, vinagre e azeite. Mexer bem para misturar todos os ingredientes.
Acrescentar pedaços de queijo mozarela (em bola). Servir como entrada ou acompanhamento.
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
O casamento entre pessoas do mesmo sexo
Debate na TV sobre o casamento dos homossexuais. Vi com muito interesse. À partida, a minha opinião fundamentava-se em 90% de razões a favor e 10% contra. No final do debate, a balança passou para uns meros 60-40. Não que os argumentos a favor do "não" tenham sido bons. A maior parte dos argumentos a favor do "sim" é que foram confrangedores.
A questão, se pensarmos bem, resume-se a duas vertentes: a prática e a simbólica. Se querem discutir o assunto a sério, concentrem-se nestes dois pontos.
Quanto ao aspecto prático, é bom ir logo ao osso da questão. Em termos de direito da propriedade e da família, que interessa que o casamento entre pessoas do mesmo sexo seja uma aberração do ponto de vista conceptual, se isso vai acabar com situações de injustiça e discriminação? Claro que é possível adoptar uma outra solução jurídica que não se chame casamento. Mas aqui entra a vertente simbólica, que tem estado muito arredada da discussão.
Deixem-me propor um par de analogias para se perceber melhor.
Na Matemática, sabemos que uma potência é uma representação simbólica que exprime o valor que se obtém multiplicando a base por si própria o número de vezes que surge em expoente. Sendo assim, é um absurdo escrevermos "cinco elevado a zero", pois zero não pode ser o número de vezes que a base multiplica por si própria. No entanto, "cinco elevado a zero" tem de existir por imperiosa necessidade da lógica matemática (ver explicação ao fundo).
Num plano mais próximo do casamento, toda a gente sabe que uma sociedade é um acordo entre duas ou mais pessoas. No entanto, porque é possível que um sócio detenha 99,9% do capital social ou até venha a adquirir, directa ou indirectamente, todas as quotas dos restantes sócios, o direito societário evoluiu no sentido de permitir a constituição de sociedades comerciais unipessoais, isto é, que apenas têm um sócio. As diferenças entre um comerciante singular e uma sociedade unipessoal não se resumem apenas a uma questão de direitos, mas incluem valores associados à imagem que se atribui no meio empresarial a cada uma destas formas jurídicas.
Nestes dois exemplos, a realidade matemática e a jurídica tiveram de se adaptar, combinando aspectos simbólicos, práticos e lógicos. É esta adaptação que tem de acontecer também no casamento.
Resumindo, as potências de base zero são um absurdo, mas têm de existir. As sociedades com uma só pessoa não são realmente uma sociedade, mas podem ser constituídas como tal. O casamento entre pessoas do mesmo sexo não é bem um casamento, mas é uma inevitabilidade. Por isso, altere-se a lei. E deixem-se de paneleirices.
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Por que tem de existir "cinco elevado a zero"?
Sendo 52 : 52 = 1 (um número a dividir por si próprio é igual a 1)
e 52 : 52 = 12 = 1 (propriedade da divisão de potências com o mesmo expoente)
então 52 : 52 = 50 = 1 (propriedade da divisão de potências com a mesma base).
Em conclusão, qualquer número elevado a zero é igual a 1.
Servido por EB às 08:51 1 arrotos
Etiquetas: Filosóficas e bagaceiras
sábado, 14 de fevereiro de 2009
Adivinha
Hoje, uma coisa simples e ao alcance de qualquer um:
- Qual é a coisa, qual é ela, que tem duas cabeças e apenas um cérebro?
Ok, não queimem os fusíveis a pensar muito em bicharada… desconfio que até já deve haver alguns a pensar nos animais mitológicos… se bem que nem andariam muito longe, isto se estivessem a pensar naqueles que foram inventados para incutir certos medos nas pessoas, fosse pelo que personificavam, fosse pela sua própria figura.
Para acabar com o “suspense”, aqui está a resposta:
E assim aqui ficou a minha mensagem de amor, neste belo dia, também ele mitológico.
Por falar em mensagens de amor, também vos deixo um pequeno trecho da letra de uma música ali dos anos oitenta, letra essa da autoria desse grande jornalista/escritor/professor/humorista, Miguel Esteves Cardoso ("coincidências", dirão alguns agora),
"Não foram poemas nem rosas
Que colheste do meu colo
Foram cardos foram prosas
Arrancados ao meu solo"
P.S. (de "post scriptum", não vá alguém pensar que isto é uma encomenda de algum filiado): Bem sei que – pelo menos a crer no share fornecido pela “TaskTest” – estarão ávidos por mais um episódio da “TDS-TV”, mas, meus queridos amigos, façam o favor de esperar mais uns tempos, pois mais vale um bom programa de televisão de vez em quando, do que uma “televisão de programa” (pelos vistos eleitoral) todos os dias.
sábado, 31 de janeiro de 2009
THE T-FILES – Encontros Imediatos Do Grau Esquisito (III)
CASA DOS PAIS DE PARMÉNIDES
SÁBADO – 9H37
Mulder preparava-se para tocar segunda vez à campainha, quando a porta se entreabriu, revelando uma cabeça coroada de rolos modeladores, cuja cara estava coberta de uma estranha substância dita embelezadora, mas que, na verdade, era algo a meio caminho entre o muco nasal e o revestimento betuminoso para reparação de paredes de alvenaria.
- Bom dia. São os senhores do Jeová? O meu marido ainda não leu os “Caminhos do Senhor” do mês passado...
- Não, minha senhora, nós...
- Vendem aspiradores, não é? Não vale a pena, não estou interessada, o que comprei a semana passada ainda trabalha...
- Agentes Mulder e Scully, – atalhou Dana, acenando o seu cartão de identificação – somos do CIS e...
- Do CIS?! Oh, meu Deus – por momentos a máscara facial branca tornou-se pálida – é por causa daquela garrafa de whisky que eu trouxe da mercearia sem pagar? Eu juro que foi engano, estava só a ver o preço, não sei como é que ela veio parar ao saco das compras, só dei por isso quando cheguei a casa, mas depois quando a quis devolver já o meu marido a tinha gasto toda para assar umas chouriças lá da terra...
- Senhora Juvenal – cortou Mulder – na verdade, estamos aqui para falar com o seu filho Parménides sobre o encontro imediato que ele teve.
- Ah, bom!... Se é só isso, façam o favor de entrar!
Em menos tempo que leva um banco a falir ou uma multinacional a deslocalizar-se, os investigadores tornaram a sala de estar numa sala de interrogatórios, tendo inclusive montado um polígrafo em cima do naperon da televisão, a qual ficava a ganhar uns pontos na decoração, face à galinha de loiça que lá estava antes.
- Sr. Parménides, o senhor acredita em discos voadores?
- Eu? Claro que acredito. Já fui apanhado por um!
Céptica, Scully franziu um sobrolho.
- O sr. está a dizer que já foi raptado por um disco voador?
- Raptado?! Não, estou a dizer que já fui apanhado por um... na praia. Era amarelo e veio a voar até me bater na cabeça... Felizmente a minha mãe estava comigo e deu logo um estalo no miúdo, para aprender a não incomodar as pessoas.
Após três horas de intenso interrogatório, foi decidido fazer a reconstituição do caso, pelo que Mulder, Scully e Parménides foram até à Tasca do Silva, tendo este servido novamente as 3 gasosas ao seu jovem cliente. A ingestão de tamanha dose de dióxido de carbono antes do almoço fez com que, desta vez, o vómito de Parménides durante o percurso errante até às traseiras da tasca tivesse ido parar aos sapatos dos agentes e não à sua camisola.
Foi exactamente no momento em que dobravam a esquina que Parménides o viu. Em plena luz do dia, lá bem ao fundo da rua, um vulto indistinto de aura verde parecia querer esconder-se do mundo, acocorado atrás de uns caixotes de lixo. Mulder e Scully sacaram das suas armas e correram até lá, tentando ser o mais discretos possível, para não assustar o ser que, visto agora mais de perto, parecia estar mais interessado em levantar os caixotes de lixo, tombando-os para dentro de uma enorme boca de metal.
De facto, a percepção daquele ser ia sendo clarificada a cada passo que os investigadores davam na sua direcção, e não deixou de ser surpreendente quando, a dez metros do local, viram o vulto voltar-se para eles, revelando toda a dignidade de um homem da recolha do lixo, envergando um colete verde fluorescente!
- Por mim, isto encerra o caso – disse Scully, olhando para Mulder com ar acusador – Vamos embora!
- Mas isto não prova que não houve aqui um encontro imediato! – argumentou o agente – Eu sei que algures acima de nós, algo ou alguém nos observa.
- Claro!... Aquilo... – Scully apontou para a câmara de vigilância que o Silva tinha mandado instalar sobre a porta das traseiras da sua tasca.
- Não, Scully. Acredito que há forças alienígenas que interagem connosco de maneiras insuspeitas para nós! Será que estamos sozinhos no universo? Claro que não!... Basta atentar em todas as maravilhas que existem por esse mundo fora e que não têm explicação científica! Os desenhos dos campos de milho, as ruínas de Stonehenge, o triângulo das Bermudas, a receita do pastéis de Belém... A verdade está algures!
sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
"Preposição" ou "predisposição", eis a questão!
Houve tempos em que me convenci que até percebia alguma coisa da língua portuguesa. Porém, com o decorrer dos tempos, chego à conclusão que as minhas notas na disciplina destinada a ensinar aos mortais a língua de Camões, foram pura e simplesmente um lapso por parte de quem mas atribuiu.
Se pensar bem agora, talvez a minha vocação estivesse mais virada para a filosofia, essa bela arte de se pensar o que se quiser, ainda por cima com a agradável sensação de que o meu pensamento poderia vir a fazer doutrina junto de discípulos.
Porque é que eu não pensei nisso antes?
Porque é que eu, em vez de estudar tão importante matéria, limitava-me a fazer extensos resumos em folhas A4, os quais metia entre os livros e depois chapava no teste, porque no fundo o que a professora queria era “palha”?
Ó miséria de vida, porque é que só agora, já na casa dos “entas”, cheguei à conclusão que tudo não passa de filosofias de vidas?
Problemas existenciais todos nós temos, mas agora, no meu caso em particular, penso que tal problema se assume como algo do foro psicológico/existencial, pois todas estas interrogações partiram dum banal “tampo-de-tacho" … É verdade, amigos – um mero, banal, simplório, sebento e quiçá asqueroso “tampo-de-tacho”!
Foi ali que fiquei naquela fronteira da indecisão entre o que vem no dicionário da língua portuguesa, versão Porto-Editora, e o que vem no recém-lançado dicionário da língua “XizéNiesa”.
Onde estava a indecisão? – Precisamente porque eu fiquei a ponderar se aquele instrumento que tampa o recipiente onde se confeccionam as comezainas, estava separado efectivamente do seu cara-metade por um “de” ou por um “do”.
Ora, depois de consultar o mais completo dicionário que existe neste belo país – aquele que nós vamos actualizando todos os dias com as nossas experiências, com as experiências dos outros, com os outros que fazem experiências connosco (muitas vezes no pobre desgraçado que não tem qualquer poder, a não ser o poder ficar calado) – cheguei à brilhante conclusão que existem dois movimentos cognitivos, a saber:
- Aquele cujo conhecimento assenta na ideia de que a experiência da vida e a forma intensa como a vivemos, leva-nos a ficar com os cabelos demasiadamente escassos para cobrir precisamente a carapaça que guarda o nosso disco rígido (e atenção que estou a referir-me aos que os têm mesmo rígidos e inflexíveis) – Estou a falar do “de”;
- Aquele outro em que o pensador é ele próprio o tampo, e que por isso só deixa entrar no tacho (da sua doutrina) propriamente dito, quem ele muito bem entende – Estou a falar do “do” (“do do”?… soa-me a jogador de futebol, mas enfim, não estou aqui propriamente para falar desse submundo, onde supostamente a coisa é mais nebulosa que qualquer manhã londrina).
Foi precisamente aqui que eu cheguei a mais uma brilhante conclusão e disse para mim mesmo “XN, espera lá, tu és um génio. Não é que tu, com a tua sabedoria saloia, conseguiste ver mais para além do que alguma vez viu um Sócrates (não façam analogias estúpidas ó faxabôr), um Platão e quiçá até um brilhante Descartes? … tu conseguiste vislumbrar algo que esses génios do pensamento nunca conseguiram, não obstante se dedicarem quase em exclusivo à arte de pensar!”.
Não sei propriamente se disse aquilo a mim mesmo enquanto dormia, ou se estava efectivamente acordado. Inclusivamente nem sei se alguma vez acordei até hoje de facto, mas sei-o realmente agora que há na verdade outro movimento e que até nem é novo, bem vistas as coisas. Trata-se de um movimento unificador daqueles dois acima referidos, o qual decidiu, após aturadas reuniões mais-ou-menos secretas (aquilo que agora pomposamente se chama de concertação), retirar a preposição substituindo-a por uma simples vogal, decisão bastante trabalhosa, pois bem sabemos a maçada que é esta coisa das fusões. E foi assim, caros companheiros, que nasceu o movimento mais em voga nos últimos tempos, de seu nome “TAMPA-O-TACHO”!
O que difere este novo movimento dos dois existentes anteriormente? – Praticamente nada amigos, praticamente nada! – No fundo, trata-se apenas de uma questão de maior rendimento logístico de pensadores que se dedicavam basicamente ao mesmo e que era o de só deixar entrar no seu tacho, aqueles cujos condimentos não viessem estragar a panelinha!
E foi assim que entrei novamente num estado depressivo, pois afinal eu até nem descobrira uma coisa por aí além, apenas fui mais além na arte de puxar pela cabeça… que me senti predisposto a fazê-lo, portanto!
N.B.: Não faltariam imagens que pudessem reflectir e ao mesmo tempo abrilhantar este meu relatório, mas façam também vocês um exercício com o vosso cérebro e tornem-se também em brilhantes pensadores – Olhem à vossa volta, olhem para quem manda em vós, olhem para quem pensa que manda em vós… e depressa chegarão à conclusão que esses pensadores dos tempos modernos existem aos pontapés (atenção, espero que o termo “pontapés” não vos leve a enveredar pela violência, pois nem é esse o meu intuito e tal nem é necessário amigos, porque sabeis, esses pensadores já são por si só bastante martirizados pela sua própria consciência).
Servido por XN às 11:37 7 arrotos
Etiquetas: Filosóficas e bagaceiras, Murraças
sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
K Sufoco!!!!!
Hoje estou ESTOURADA... qualquer dia até preciso de um assistente!!!
...sem pachorra para nada... dediquei-me ao descanso do lar... pus-me práqui a ler umas coisas... e gostei do seguinte texto:
ou...
ou...
Servido por Xi às 23:05 2 arrotos
Etiquetas: Pataniscas
terça-feira, 6 de janeiro de 2009
Para quem não viu a entrevista do primeiro-ministro na SIC...
... ou para quem viu e não ficou suficientemente elucidado, o que o homem disse resume-se a isto:
domingo, 4 de janeiro de 2009
THE T-FILES – Encontros Imediatos Do Grau Esquisito (II)
CASA DE PARMÉNIDES (quer dizer, dos pais...)
5ª FEIRA – 10H15
- Tu viste o quê? - perguntou a incrédula mãe, à mesa do pequeno-almoço.
- É verdade, mãe, eu vi um ser de outro planeta!
- Parménides! Se voltas a falar uma maluquice dessas, já não te faço uma bolsa em crochet para o telemóvel. E ai de ti que fales qualquer coisa na rua, que eu ponho-te de castigo e não sais à noite durante um mês. Passa o teu pai a levar o lixo à rua.
- Mas... mas... eu vi, tinha uma luz brilhante verde em volta e tocou-me e tudo, vê como a minha camisola ficou com uma substância viscosa...
- Aquilo é vomitado teu, meu palerma! Ainda por cima estavas perdido de bêbado! O que te deu meu filho? Sabes que não podes beber mais de uma laranjada por semana.
- Este rapaz tem cada uma... – comentou o pai de Parménides, interrompendo por instantes a leitura do jornal.
- Tu já viste isto? O que iria dizer a vizinhança se ele fosse para a rua com histórias deste género? Passava por tolinho, só pode!...
- Bem, vê lá que diz aqui no jornal que nasceu no Entroncamento uma ovelha com duas cabeças e o pastor diz que não tem carneiro nenhum no estábulo, que foi concepção divina...
- Pode muito bem ser, sim senhora! Aquela vaca da vizinha do 4.º esquerdo também apareceu prenha na semana passada e o marido anda emigrado há mais de 3 meses. A concepção divina tem destas coisas... agora cá seres de outro planeta!
Desalentado por não conseguir convencer ninguém do seu encontro imediato, Parménides acabou de comer o seu nestum mel em silêncio e foi até ao Salão Almerindo, “Barba e cabelo do homem moderno-phundado em 1912”, conforme rezava na placa de latão dourado, exclusiva dos membros da Ordem do Barbeiros, e que atestava a sua idoneidade profissional e credibilidade pública em matéria de melenas, marrafas, bigodes e suíças.
E foi enquanto lhe esticavam os 27 fios de sedoso cabelo, alinhado à esquerda, por cima do cocuruto até atingir a orelha direita, que Parménides se descaiu sobre o seu estado de alma, contando, primeiro, sobre o seu peixinho vermelho e segundo, sobre o estranho encontro da noite anterior. Contudo, não foi o fraco código deontológico dos barbeiros que contou ao mundo essa revelação. Insuspeito, entre os clientes que aguardavam no banco corrido de napa a sua vez de sentir a implacável, porém profissional, tesoura do sr. Almerindo, estava um repórter do prestigiado semanário “Dica da Semana”, que titulava no dia seguinte “Há homens verdes no bairro!”.
- Uau, Mulder! – exclamou Scully lendo as letras gordas – Pá de porco com osso só a 2,99 € o quilo!
- Não é bem isso. Temos aqui mais um relato aparentemente infundado de um encontro alienígena. Penso que devemos ir investigar esta situação e falar com este tal de Parménides.
- Não devíamos antes reforçar as equipas de investigação da “Operação Furacão”? Penso que têm tido dificuldades com falta de pessoal na investigação do BPN.
- Scully, em termos de não identificados, continuo a preferir objectos voadores a contas off-shore...
terça-feira, 30 de dezembro de 2008
O Silva anda zangado
O Silva tem andado com um Stress que não se pode aturar, além de lhe provocar gazes insuportáveis, corre com todos da tasca. Ainda ontem berrava ele, num ataque de fúria:
- QUEM DISSER MAL DO TINTO, É POSTO NA RUA E NÃO ENTRA CÁ MAIS!!!!!
E eu:
- Ó Silva, a pinga anda boa!
sábado, 27 de dezembro de 2008
O sexo no quotidiano de homens e mulheres
Tendo em vista um estudo que espero publicar em breve, compilei já cerca de trezentos mil factos do quotidiano que exemplificam a curiosa diferença de pontos de vista entre homens e mulheres no que respeita a sexo. Mais especificamente, o estudo procura mostrar, através desses diversificados exemplos, de que forma o sexo está sempre presente no quotidiano dos homens, enquanto que para as mulheres ele apenas se revela... digamos... às vezes.
Nesta quadra natalícia, por exemplo, quando uma mulher deseja Boas Festas está a pensar no ritual familiar das prendas em família, no encanto das iluminações coloridas e nas iguarias de uma mesa farta e festiva. Para o homem será uma excelente oportunidade para imaginar algumas zonas do corpo onde, depois do jantar, das prendas e das luzes, as festas possam ser realmente Boas.
No vestuário encontramos um dos maiores desníveis entre os pontos de vista masculino e feminino. Por exemplo, o decote ousado. A ousadia, para a mulher, reside na dificuldade em combinar algumas peças de roupa, tendo em atenção a cor, de maneira que umas se vejam e outras não, e com isso exibir 80 por cento do peito. Para o homem, porém, decote ousado seria aquele que revelasse apenas os restantes 20 por cento, independentemente da roupa usada.
Esta forma de ver as coisas tem evoluído com o passar dos tempos, adaptando-se às novas práticas e às alterações tecnológicas. Uma das situações modernas mais eróticas, para os homens, é arranjar estacionamento nos parques que têm muito movimento. É evidente a similitude que existe entre a conquista sexual do macho e a procura de um lugar livre para estacionar, desde o circular exploratório de busca em ambiente concorrencial até à penetração final do veículo num espaço limitado. Alguns homens, encontrado o espaço livre, chegam mesmo a fazer sucessivos avanços e recuos do veículo, uma manobra de claros contornos explicitamente sexuais.
Imagino que a publicação deste estudo será apreciada por parte dos homens, que confirmarão nele várias ideias que já lhes tinham ocorrido, mas chocará provavelmente as mulheres. Como se sabe, para as mulheres, o principal defeito dos homens é eles estarem sempre a pensar em sexo. Já, para os homens, o principal defeito das mulheres é elas nunca pensarem em sexo.
Embora estas sejam verdades universalmente aceites, eu acho que elas pecam por algum exagero. Não é verdade que um homem esteja sempre a pensar em sexo. Eu, por exemplo, lembro-me perfeitamente que consegui estar cerca de sete minutos sem pensar em sexo numa tarde de domingo de Junho de 1973. Nesse período de tempo, fiquei completamente absorvido a ver na televisão as peripécias de um episódio do Bonanza, enquanto brincava distraidamente com as mamas de uma das empregadas do meu pai. Mas acredito que eu seja apenas a excepção que confirma a regra.
Servido por EB às 17:46 2 arrotos
Etiquetas: Filosóficas e bagaceiras
sexta-feira, 26 de dezembro de 2008
TDS-TV - Emissão experimental?... inaugural?... final?
Chegados que estamos ao final do ano, altura em que a estimada clientela desta Tasca pensou já ter assistido ao que de pior pode acontecer neste cantinho (rectangulozinho… para ser mais exacto), eis que eu próprio decidi agoniá-los ainda mais com a abertura de um canal televisivo.
Senhoras e senhores, meninas e meninos, é com um enorme prazer que lhes apresento a TDS-TV!
Bem sei que estou sujeito a comentários jocosos, género “ai e tal, ainda te falta muito para chegares sequer aos calcanhares da TVI!”, mas de uma coisa não tenho dúvidas – pelo menos tentei!
Para todos um super-hiper-mega-fixe 2009! (espera… a Floribela dava na TVI ou na SIC?)
quarta-feira, 24 de dezembro de 2008
O método mais eficaz para emagrecer
Sempre me fizeram espécie as mil e uma referências a métodos e contra-métodos de emagrecimento, uma coisa que preocupa muita gente, principalmente mulheres que precisam urgentemente de engordar uns quilitos, mas enfim, isso é outro problema. Eu verifiquei que há um método muito simples para obter e manter o peso que se quer, que considero ser, de longe, o mais eficaz e, ainda por cima, o mais simples. Basta comprar uma balança de mostrador digital.
Na realidade, não basta comprá-la. É preciso comprá-la e usá-la. As balanças são uns aparelhos óptimos para medir o peso e é isso mesmo que quem quer emagrecer deve fazer – medir o peso todos os dias de manhã.
Esta prática irá dar um conhecimento total da forma como o nosso corpo se comporta em termos de peso face aos acontecimentos do dia-a-dia. O que comemos ou o que jejuamos, o que caminhamos ou deixamos de caminhar, o que dormimos ou deixamos de dormir, o stress, as gripes, o frio, o calor, tudo isto e muito mais se reflecte no nosso peso. E a balança dá-nos, ao fim de algum tempo, uma informação detalhada sobre isso. Depois é só dosear as coisas em função do peso que se pretende ter.
Nunca mais diga "ai, bolo não, que estou muito gorda!". Em vez disso, diga assim: "hoje de manhã pesava menos 300 gramas que ontem; como dei aquela caminhada extra à tarde que me deve ter retirado mais 600 gramas, e, como o resto do dia foi normal em termos de contribuição para o peso, dá perfeitamente para comer duas fatias de bolo". Quem fala assim não é gago. Nem gordo. Como dizia o outro, é só uma questão de... fazer as contas.
Servido por EB às 12:57 3 arrotos
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Um conto de Natal
Olá, o meu nome é Parménides Juvenal, moro aqui no bairro e tenho uma história de Natal para contar.
Ontem, como é tradição em época de Natal, depois de tomar o meu nestum ao pequeno almoço, fui com os meus pais à missa do padre Inácio. Quer dizer, na verdade foi a minha mãe que entrou comigo pela mão na igreja, porque o meu pai insiste sempre em ficar lá fora a dar esmola aos pobrezinhos que estão nos degraus da entrada, embora no último ano, a minha mãe se tenha chateado com ele por, ao sair, o ter encontrado na esquina agarrado a uma senhora das que vivem na casa da madame Sissi.
Eu até compreendo o meu pai, pois se já tinha dado toda a esmola que podia, estava a dar algum calor humano à pobre senhora, que estava de mini-saia e top a tiritar de frio, coitadita! Pelos vistos a minha mãe não pensa nas pessoas que, chegado o Inverno, não ganham para comprar roupa mais quente...
Bom... mas estava eu a falar da missa do padre Inácio. Já estávamos quase de saída, quando o padre lançou a pergunta às mais de 10 pessoas que estavam na igreja:
– ... meus irmãos, onde está Deus?
– Ele está nesta igreja – disse o sr. Almerindo da mercearia.
– Sim, muito bem visto, pois esta é a casa Dele. - replicou o padre Inácio.
– Ele está no céu, onde vela por nós – disse a amante do doutor Anacleto.
– Ele está nos nossos corações... - disse uma vozinha lá atrás.
Ora isso deve ser falso, pensei eu, pois venho cá todos os anos e nunca o vi por aqui! Aliás, acho que ele deve ser como o Bin Laden, pois diz-se que ele está em todo o lado, mas muita gente o procura e nunca ninguém sabe onde ele está. Foi aí que me lembrei de um episódio passado há muitos anos que me mostrara onde está Deus. E decidi intervir:
– Eu sei que Deus morava na minha casa-de-banho!
– ??... Ai sim?! E o que te faz pensar nisso? - perguntou o padre Inácio, depois de esperar cerca de dez minutos que a assistência acabasse de rir.
– Porque eu lembro-me, quando era mais novo, tinha para aí os meus trinta anos, muitas vezes ouvia a minha mãe a entrar na casa de banho, e passado uma hora ou assim, ouvia o barulho do meu pai a bater na porta, a torcer-se todo com a mão na braguilha e a gritar “Meu Deus, mas tu nunca mais sais daí?!”
Servido por PJ às 11:58 1 arrotos
Etiquetas: Pataniscas
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
THE T-FILES – Encontros Imediatos do Grau Esquisito (I)
TASCA DO SILVA
4ª FEIRA – 21H30
- Praticamente crescemos os dois juntos...- lamentou-se Parménides Juvenal afogado na sua dor e olhando para o fundo do copo, que repousava vazio no balcão da Tasca. Enquanto quebrava a casca a uns ovos cozidos para servir no dia seguinte, o Silva procurava que aquele jovem de 40 anos tomasse consciência de si.
- Não achas que por hoje já chega?
- Era mais uma gasosa, faz favor! - continuou Parménides sem atender ao que lhe dizia o taberneiro, que para não contrariar o seu cliente, e porque não era do seu feitio prejudicar o negócio, serviu-lhe uma gasosa pela terceira vez, aumentando o estado de alienação na exacta medida do seu desgosto - ...era um grande amigo, sempre disposto a ouvir-me, nunca se negou quando eu tinha de desabafar algum problema, eu sabia que a qualquer hora que precisasse ele estava ali e eu podia contar com ele...nunca pensei que fosse tão duro ver partir assim um amigo! Nem quis ver quando o meu pai o largou na sanita e puxou o autoclismo...
- Como?... - espantou-se o Silva, quase entornando a gasosa no balcão.
- ...pois é, nunca me esquecerei do meu peixinho vermelho...
O Silva rolou os olhos e mirou o relógio do Benfica que, na parede de fino azulejo Viúva Lamego, marcava o imparável caminhar dos ponteiros a caminho das dez.
- Não será melhor eu levar-te a casa?
- Não, mas é melhor eu ir andando, se eu chegar a casa depois das dez é capaz de a minha mãe se chatear e já nem me dá o banhinho antes de deitar...
Massacrado pela perda do ente querido e por 3 gasosas nunca antes tomadas de uma assentada, Parménides saiu para a rua, indo ao encontro da noite fria, que lhe despertou os sentidos do torpor produzido pelo dióxido de carbono da bebida. Num movimento pendular semelhante ao de um limpa-pára-brisas caminhou entre o passeio da esquerda e o da direita, escutando os seus passos no empedrado, agora que todo o bulício do bairro cessara no exterior, transferindo as actividades físicas nocturnas para o interior da casa de madame Sissi.
Parménides ía a meio da Travessa do Berbigão quando, subitamente, após um estrondo seco, os candeeiros da rua se apagaram todos, deixando-o apenas com a fraca companhia da lua, ainda em quarto crescente. O seu pequeno coração começou a palpitar mais intensamente quando foi tomado pela estranha sensação de estar a ser observado, sem saber muito bem de onde. Um arrepio percorreu-lhe a espinha de cima a baixo, logo seguido de um fenómeno idêntico em sentido inverso, pelo que decidiu alargar o passo.
De repente, algo o surpreendeu não conseguindo conter um pequeno grito de medo. À sua frente, em enormes letras vermelhas, estava a palavra “MORTA”! O nó que se lhe formou na boca do estômago acalmou um pouco quando percebeu que se tratava de um cartaz publicitário do Lidl, anunciando “Mortadela a 1,29 €”.
O seu passo foi de novo apressado quando ouviu o som nítido e não distante de lobos uivando à lua cheia, o que era tanto mais estranho quanto a lua estava em crescente e ao fundo da rua só se viam 2 cães vadios. Atalhando pelas traseiras da Tasca, Parménides não reparou no cadáver carbonizado de uma ratazana junto de um poste de alta tensão recentemente instalado, e que exalava um odor de morte. Contudo, não pôde deixar de reparar em algo que, no meio da rua, o fez estacar o passo, estarrecido.
Uma figura estranha, algo retorcida mas ao mesmo tempo de silhueta humanóide, irradiava uma aura em tons de verde, como que um brilho que acompanhava todo o corpo, simultâneamente atraente e repulsivo, e que estendeu um braço na tentativa de estabelecer contacto.
E então, a criatura emitiu som.
Uma voz grave e rouca, com um sotaque que, dir-se-ía numa disparatada comparação, semelhante ao de um emigrante de leste, falou:
- Não ter medo, senhor... - pareceu-lhe ouvir em português.
O cérebro de Parménides perdeu o controlo sobre o seu corpo e a razão cedeu lugar à emoção. O seu coração disparou a ordem, a bexiga aliviou-se e as pernas desataram a correr o mais rápido que podiam, a caminho de casa.
