domingo, 28 de setembro de 2008

CSI:TDS - "Afinal havia outra" - parte II


– Gil Grisso, criminologista – apresentou-se o recém chegado, estendendo a mão ao detective Agostinho, que chefiava a equipa de polícia responsável por fazer da Tasca do Silva algo entre um acampamento de escuteiros e um première de cinema, tal o aparato de homens, cães, equipas a cavalo e projectores de halogéneo em todo o quarteirão. - Conte-me tudo.
– Tozé Vilarinho – disse o inspector apontando para o corpo coberto com um lençol, que jazia na entrada da Tasca – 45 anos, um metro e sessenta, 128 kgs, badocha morador no bairro, apreciador de comida com altos teores de gordura, estava ao balcão a petiscar umas tiras de entremeada barradas com manteiga, quando começou a arroxear e saiu cambaleando do estabelecimento "sem sequer pagar a despesa", segundo palavras do sr. Silva, proprietário.
– Gil, – chamou Catarina Salgueiro, uma loira quarentona boa comós pêssegos em calda, vestindo um blusão azul com grandes letras CSI – o morto tem resíduos de pele nas unhas, já recolhi amostra de ADN, e existem muitos cabelos junto ao balcão.
– Encontrei um frasco de comprimidos no fundo da sarjeta,- anunciou Nico, um dos criminalistas que estava no exterior da Tasca – junto com uma ratazana cinzenta.
– Por falar nisso – disse Gil – já comia qualquer coisa. Sinto um ratito em mim.
– Eu tenho comigo uma ratita, talvez pudéssemos confraternizar...– propôs Catarina.
– ...E aquela ali ao canto? – perguntou Gil ao inspector Agostinho, desviando a conversa antes de entrar por caminhos dos quais se viesse a arrepender... ou não.
– Carmelinda Vilarinho, 40 anos, ex-esposa de Tozé, um metro e setenta, 69 kgs, 95 de busto, 60 de cintura, 90 de anca, calça 39, tem um sinal em forma de lótus sobre o seio direito, gosta de sexo tântrico...
– Ex-esposa? – atalhou Gil Grisso.
– Sim, a partir do momento em que o Tozé quinou. Um óptimo partido, se me perguntares... – suspirou Agostinho.
Gil já não ouviu este último detalhe, pois dirigiu-se à chorosa viúva.
– Carmelinda Vilarinho? Sou Gil Grisso, criminologista reputado e podre de bom. Já deve ter falado com a polícia, mas pode contar-me alguma coisa sobre o seu marido?
– ...ele ficava excitado quando eu lhe punha chantilly no umbigo e lambia...
– Eu referia-me a qualquer coisa relativa à sua morte!
– Ah, isso... Espero que apanhem rapidamente o responsável, ou neste caso, a responsável por este crime horrível...
– A responsável?
– Sim, eu estou desconfiada que o meu marido tinha uma amante. Sabe como é, um homem charmoso, na força da vida, tinha começado agora a fumar charutos pois o médico tinha-o proibido de continuar a fumar cigarros, lindo de morrer com uma vida profissional bem sucedida...
– Lindo?... – Gil franziu o sobrolho, conferindo a foto de Tozé no processo, na qual ele sorria patrocinado não por uma marca de dentífrico, mas por uma marca de mostarda, tal a quantidade de creme que lhe escorria dos lábios.
– Claro, não acha que o Tozé é um homem atraente? Para mais agora, que íamos renovar os nossos votos de casamento, é bastante óbvio que a amante teria razões para o matar.
Encontrem a amante, e terão encontrado a assassina!...

sábado, 20 de setembro de 2008

Para que conste!

Fez há dias um ano que este estabelecimento abriu oficialmente ao público, por obra e graça de duas pessoas, cuja sanidade mental com certeza não andaria nos melhores dias, coisa estranhíssima, pois até são duas pessoas muito equilibradas. Não o foram, de facto, na altura, pois só assim se compreende o facto de me deixarem mandar aqui as minhas postas de pescada… podre… ou isso, ou então quiseram arranjar alguém que se enquadrasse na etiqueta “deixa-lá-postar-aqui-algo-abruptamente-estúpido-que-possa-fazer-frente-à-estupidificante-ideia-de-um-individuo-de-barbas-com-a-mania-de-intelectual-em-cujo-blogue-são-editadas-fotos-enviadas-pelos-frequentadores-do-seu-estaminé” ... também haverá uma terceira hipótese, que foi o facto de na altura do casting só terem aparecido mais estes dois candidatos,


Conversation from Martin Wilson on Vimeo.

Se bem que me subsistissem dúvidas na altura sobre o porquê do convite, depressa me esqueci de tal questão, pois tive a oportunidade de assistir a um casting de mais dois candidatos, os quais também acabaram por ser contratados. Ora apreciai a beleza do número,



Para levantar um bocadinho do véu acerca destes dois, apenas vos digo que o indivíduo esverdeado só há bem pouco tempo se sentiu com maturidade suficiente para postar… isto com a condição de a Tasca lhe servir um copo de leite morninho sempre que ele por aqui passe… quanto à senhora não falo… por questões de preservação da única integridade que ainda me resta, a física… Percebeis?

Parabéns à Tasca, ao Silva, aos seus colaboradores, familiares e amigos, bem como ao vastíssimo público que frequenta este humilde, mas limpinho, estabelecimento!

domingo, 14 de setembro de 2008

CSI:TDS - "Afinal havia outra" - parte I

Entre os vários mitos urbanos induzidos pela música moderna, está aquele que diz que Nova Iorque é a cidade que nunca dorme, olvidando que todas as cidades frenéticas e fervilhantes assim o são.

Esta é uma cidade onde, para muitos cidadãos, o trabalho nocturno é uma regra: do técnico de higienização de ruas a uma empregada de uma loja de chineses, de uma colaboradora do estabelecimento de madame Sissi a um criminologista a trabalhar no turno da noite. Também esta cidade nunca dorme, também este bairro nunca adormece.

A noite estava escura e fria, como compete a uma noite de lua nova, em que o termómetro desce abaixo do habitual. Na parte baixa, da madrugada ao anoitecer, o alcance das brilhantes luzes de néon do estabelecimento de madame Sissi emprestam vida àquele bairro, competindo com um milhão de estrelas fixas no firmamento negro, tão longínquas e minúsculas quando comparadas com José Mourinho ou Cristiano Ronaldo. Na parte alta, o ambiente é outro e a calma aparente pode quebrar-se a qualquer momento, como um copo de três que cai do balcão da Tasca do Silva directamente sobre os frios mosaicos do pavimento.

Um homem sai cambaleante do estabelecimento, com uma mão tacteando o caminho como um invisual e outra agarrada ao peito, sobre o lado esquerdo, crispada, como se tentasse agarrar a vida que se lhe esvai como areia fina de entre os dedos. Parménides Juvenal, morador do bairro, atravessa o passeio despreocupado, depois da sua saída nocturna para levar o lixo ao ecoponto, quando o cambaleante sujeito avança sobre ele. Tenta agarrar-se a Parménides, cravando-lhe as unhas na carne, mas o último sopro de vida esvai-se e o seu corpo cai redondo aos pés do jovem atónito, que sente um ligeiro descontrolo do seu esfíncter e pressente uma pequena mancha acastanhada nos seus boxers.

Em estado de pânico, corre para casa quase à mesma velocidade que o seu pensamento trabalha sobre um sobressalto que lhe inquieta o espírito: todos os segundos podem ser vitais para que o leite morninho, que o aguarda antes de deitar, não arrefeça...

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Imagens da Rota do Linho


No sábado passado fiz os 7 quilómetros da Rota do Linho.


Aldrabei um bocadinho na parte final por causa de uma dobradiça na perna direita. É natural, dada a dificuldade média-alta do percurso e as já várias décadas em que venho usando as tíbias e os perónios.


A chuva da véspera limpou as poeiras e ajudou a compor as cores.


Não ponho imagens das cascatas porque ficaram uma coisa muito déjà-vu.
Mas achei graça a esta parede de um dos moinhos.


Não sei se já tinham notado, mas clicando nas imagens vê-se uma ampliação.

sábado, 6 de setembro de 2008

Há vida para além da porca e do parafuso!?

Acabado o período a que alguém se lembrou de chamar de férias, eis que regressamos à vidinha do dia-a-dia.

Hoje em dia já não me custa tanto ultrapassar esse tormento que era o “Jet-Job”, pois já se sabe que noutros tempos, os de solteiro, depois de muitas noites que tinham tanto de bem bebidas, como de mal dormidas, a coisa custava a engrenar e era ver-nos a ressacar em pleno trabalho, tipo olhar para a máquina da água ao canto do escritório e imaginar um barril de “Super-Bock” fresquinha, ou então olhar para a colega do lado e imaginá-la em fio dental (e talvez até dizer-lhe “tu és fresca”… espera, já estou a sonhar… naqueles tempos penso que ainda não havia dessas modernices, perdão, “porcalhices”).

Uma das coisas úteis que fiz nas ditas férias, por estranho que possa parecer, foi levar o puto mais velho ao cinema. Sim, leram bem – AO CINEMA!

Agora não é bem cinema… é mais um aglomerado de capoeiras à escolha do freguês… então aquela parte das pipocas e da cola é que acabam com a minha paciência… mas onde foi parar o velho costume de levar uma gaja ao cinema para lhe dar umas trincas?… pipocas?… comei-as vós!… melhor, comei o milhinho em cru… pode ser que rebente nessas entranhas imundas de tudo… e ao mesmo tempo limpas de nada!

Reparei agora que já escrevi “porcalhices” e “imundices”. Nada mais a propósito para introduzir aquilo que eu vi.

Chegados ao dito aglomerado de salas de cinema, depara-se-nos logo uma tarefa árdua e difícil, que é a de escolher os filmes – outra coisa que não existia antigamente, pois limitavamo-nos a ir ver um único filme que estava em exibição uma série de dias seguidos, e por isso já sabíamos para o que íamos. E mesmo que não soubéssemos era igual ao litro, pois basicamente era tudo à base de murros, tiros e facadas… salvo as sessões das quartas-feiras, em que a malta, mesmo no verão, ia munida dum sobretudo… de preferência com um ou dois tamanhos acima do que gastávamos.

Acabei por escolher o “Wall-E”, dada a minha companhia, e em boa altura o fiz, ou nem por isso, dados os problemas existenciais que acabei por acumular aos que já trazia e que são muitos, como sabeis.


“Wall-E”, resumidamente, trata-se da história de um pequeno e simpático robot, cuja missão era a de limpar o planeta Terra depois deste ter sido abandonado à força pelo homem – o mesmo homem que o encheu de tudo quanto era porcaria.

O pequeno robot, que há centenas de anos se limitava a arrumar sucata sozinho, acaba por conhecer uma robot, de seu nome Eve, enviada à terra pelo homem que agora vivia numa enorme nave, Eve essa pela qual o “E” se apaixona e acompanha para tudo quanto é lado, mesmo quando esta regressa à nave que a tinha deixado no nosso planeta.

Por detrás desse grande amor entre dois indivíduos de lata, está uma história mais profunda e abrangente, pois é esse casal de pombinhos que acaba por dar uma visão da vida ao homem, da qual este já não se lembrava, sendo que no fim todos regressam à terra, robots incluídos (eram às manadas e faziam de tudo lá na nave espacial onde a humanidade vivia desde que abandonou a terra… presumo que até limpavam o cuzinho dos bebés, a crer no aspecto arredondado de toda a gente), para supostamente recomeçarem tudo de novo.

“Muito bonito sim senhor”, disse para mim mesmo mal saí da sala. No entanto, mais tarde estive a pensar naquilo e cheguei à seguinte conclusão – “Espera, está tudo errado, logo a começar pela “gaja” por quem se apaixona o “E”… mas ela até se chamava Eve… onde é que eu já vi isto?… Robots?… Mas não foi por causa da nossa ânsia em não fazer um corno, que acabamos por mecanizar tudo, inclusive o nosso pensamento?”.

Senhores da “Pixar”, vós sois de facto muito criativos, disso não restam dúvidas e por isso aqui vos faço uma vénia. Agora não me venham lá com tretas de histórias profundas, porque dessas nós já conhecemos da história passada e da presente, e até já sabemos o final da história. Olhai, se queríeis fazer uma coisa realmente bem feita, pegavam em dois humanos, tipo o Joaquim e a Gertrudes, punham-nos a exterminar todo o homem-máquina que por aí empesta a humanidade e, para abrilhantar a coisa, metiam umas belas cenas de amor e sexo pelo meio …. ISSO É QUE ERA!

Ok, eu sei, sou um sonhador e nada do que eu penso já faz sentido. Por falar em fazer sentido e para dar um tom de humor à coisa sensaborona que escrevi, deixo-vos aquilo que eu considero ser de um humor refinado e em que, aqui sim, se vê a verdadeira utopia a que chegámos nos dias de hoje. Ora saboreiem lá:




Bem, está na hora de mudar o óleo… às azeitonas!

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Futebol

Ontem deu-me para assistir um pouco a um jogo de futebol que estava a ser transmitido pela televisão. Confirmei pela enésima vez que o futebol está uma coisa nojenta.

Decerto concordarão que seria repugnante e reprovável ver a meio de uma partida de ténis um dos jogadores mandar uma suculenta escarreta para o meio do court. Ou no final do esforço de uma corrida de natação ver o vencedor a expelir vigorosamente a ranheta do nariz para a água da piscina. Pois ambas as coisas se vêem constantemente entre os futebolistas.

O que é isto? Falta de educação higiénica? Será improvável, pois isso significaria que, por grande coincidência, todos os desportistas porcos estariam a convergir para esta modalidade. Não. A mim ninguém me tira da ideia que este comportamento faz parte da peculiar cultura do próprio futebol, o qual, ao que parece, se quer naturalmente tosco e virilmente abrutanado.

Confirma-se também que, ao contrário de qualquer outra modalidade desportiva, o futebol praticamente não evoluiu em termos técnicos nos últimos 20 anos. Os jogadores continuam a entrar em campo munidos apenas de uma natural habilidade para chutar na bola e rasteirar os adversários. Além de, obviamente, escarrar. Por isso é normal que os minutos do jogo se vão arrastando sem se vislumbrar qualquer técnica concreta, pensada e treinada para ser o mais eficaz possível, quer para dar origem a lances espectaculares, quer para atingir esse mais cobiçado objectivo que é o golo. Pelo contrário, tudo parece ser deixado ao acaso, à tal habilidade individual primária dos jogadores, tirando um ou outro lance na marcação de pontapés livres. É confrangedor!

Como se isso não bastasse, volta e meia assistimos a uma tremenda falta de disciplina dos jogadores, que se envolvem de forma infantil em lances e atitudes pelos quais acabam por ser penalizados com cartões. É possivelmente o pior exemplo que eu conheço de falta de profissionalismo, tanto mais reprovável quando se está em presença de profissionais superiormente pagos.

Falta de profissionalismo e de respeito humano. Muitos destes lances e atitudes são do mais grosseiro em termos de desonestidade e de pura agressão, física e verbal. Num dos lances do jogo de ontem, um jogador aproveita a queda do adversário para deliberadamente lhe maltratar as coxas com os pitões das botas, enquanto finge olhar para cima, para a bola. Punido com o cartão vermelho, esboça ainda um gesto de surpresa e de negação de qualquer falta.

Eis o futebol na sua vulgaridade habitual. Uma cambada de gajos violentos, fingidores, mentirosos e porcos, pagos chorudamente porque a populaça uiva de satisfação com estas práticas, a coberto de uma idiota e irracional simpatia clubística.

domingo, 31 de agosto de 2008

Manias e preconceitos

Os feitos do atleta Francis Obiorah Obikwelu durante anos não despertaram qualquer interesse em Portugal, pelo simples facto de ele ser um cidadão nigeriano. Mas o interesse subiu e generalizou-se no nosso país a partir do momento em que Francis passou a ter a nacionalidade portuguesa. Um simples acto administrativo mudou a forma como passámos a ver a actividade daquele atleta.

Nos meus arquivos de bagatelas e preciosidades, conservo um cartaz que uma escola do ensino secundário, há já uma boa dezena de anos, usou para publicitar uma actividade. Essa actividade era de divulgação musical e tinha por título "Por que é que a música clássica é tão chata?". O cartaz tornou-se uma curiosidade porque um aluno escreveu nele um rotundo e categórico "Foda-se a escola". Aquilo que eu acho mais significativo nesta relíquia é que a antipatia em relação à escola conseguia, neste caso, ser ainda maior do que aquela que, sem dúvida, o aluno teria em relação à música clássica.

Uma serpente, mesmo que inofensiva, causa calafrios e medo a quase toda a gente, apenas porque é uma serpente. Milhares de pessoas são indiferentes à música clássica ou até a detestam, apenas porque ela é música clássica. Todos estes exemplos mostram como há um certo tipo de rótulos que atribuem um valor de preconceito a tudo quanto existe à face da Terra, sejam pessoas, nações, animais, instituições, obras de arte ou resultados desportivos.

Se eu vos convidar para ouvir o belíssimo tema principal do segundo andamento da Sinfonia n.º 1 do compositor português Luís de Freitas Branco, imagino que poucos aceitarão o convite. Bah! Música clássica e, ainda por cima, de um reles compositor português! Que isto do nacionalismo português dá para os dois lados - glorificam-se umas merdas sem interesse nenhum ao mesmo tempo que superiormente se denigrem sólidos valores e mesmo riquezas absolutas. Mas esta mesma música decerto iria comover toda a gente que a ouvisse num aclamado filme americano, caso ela tivesse sido escolhida como leitmotiv do simpático e nostálgico herói, a quem tudo acabou por correr bem para maior contentamento do espectador.

Querem experimentar? Ora então fechem os olhos, imaginem a cena e ouçam os 2 minutos anteriores ao The end deste inexistente filme.




Luís de Freitas Branco (1890-1955)
Tema principal do 2.º andamento da Sinfonia n.º 1
RTÉ National Symphony Orchestra (Irlanda)
Maestro Álvaro Cassuto
Naxos (8.570765), 2008

sábado, 23 de agosto de 2008

Introdução ao caril

Encontrei há dias numa página da Internet uma intervenção gastronómica extraordinária. Um fulano divulga nessa página uma receita de caril de camarão retirada de uma revista, mas vai adiantando que "ou o cozinheiro que planeou esta receita percebe tanto de cozinha como eu de engenharia aeroespacial, ou a tipografia enganou-se na impressão da revista e trocou os ingredientes". Na realidade, a receita usa coisas como alho, malagueta, gengibre, cominhos, coentros e açafrão-das-Índias. E o peremptório chefe apresenta mais à frente esta espantosa conclusão pessoal: "caril de qualquer-coisa, sem caril, para mim, não é caril de coisa-nenhuma, açafrão da Índia, penso eu e na minha modesta opinião, não é o mesmo que caril".

É altura para esclarecer uma coisa básica sobre caril. Ao contrário daquilo que muita gente pensa, o caril não é uma especiaria de sabor característico e cor castanho amarelado que se encontra por todo o lado à venda em frascos ou em pacotes. A palavra caril deriva de termos asiáticos que designam simples molhos ou cozinhados que utilizam vários condimentos ou especiarias. E o pó de caril é apenas uma invenção ocidental que se popularizou porque facilita a confecção de pratos com um sabor exótico.

O pó de caril é, efectivamente, uma mistura de várias especiarias. Como a variedade e quantidades parciais destas especiarias fica ao critério de cada fabricante, não há dois pós de caril exactamente iguais, embora pareça que todos sabem mais ou menos ao mesmo - ou seja, a "caril". Para aumentar a confusão, há duas plantas normalmente associadas ao caril mas que não têm a ver directamente com ele: a Helichrysum italicum (que tem um cheiro próximo do pó de caril industrial) e a Murraya koenigii ou "folhas de caril" (usada como aromática na cozinha asiática).

As especiarias mais vulgares e mais fáceis de conseguir em Portugal para utilizar em caris são a pimenta, os coentros (semente), os cominhos, o cardamomo verde (na foto) e o cravinho. A cor amarelada é obtida acrescentando curcuma (vulgo "açafrão-das-Índias"). Para aumentar o picante, utilizam-se malaguetas, frescas ou secas (por exemplo, piri-piri), bem como pimenta-de-caiena ou outras pimentas. Podemos ainda variar subtilmente o sabor global acrescentando outros produtos como canela, sementes de funcho, nós moscada, macis, gengibre, sementes de mostarda, paprica (colorau), entre muitos mais.

Como qualquer outro produto "enlatado", o pó de caril tem a desvantagem de não ser tão genuíno como o artesanal. Algumas marcas que por aí se vendem são mesmo más em termos de sabor. Assim, nada melhor do que sermos nós a preparar o nosso próprio caril a partir de especiarias naturais.

Uma coisa muito interessante é que no caril feito por nós o sabor pode variar bastante conforme utilizamos mais ou menos de cada uma destas especiarias. Podemos ainda evitar usar um ou outro produto menos atraente para o nosso palato. Além disso, podemos optar também em algumas variantes de confecção, como seja utilizar as especiarias moídas ou não moídas; ao natural, fritas ou ligeiramente torradas; secas ou em pasta ou molho de marinada, etc. Tudo isto nos dá, portanto, a possibilidade de experimentar diferentes combinações e optar depois pelas misturas pessoais e pelos processos que mais nos agradem.

Os produtos devem preferencialmente ser adquiridos e conservados em grão, isto é, não moídos. A maior parte deles pode ser comprada em qualquer supermercado na prateleira das especiarias. Há, porém, algumas dificuldades. Os coentros em grão só costumam ser encontrados na zona das... sementes hortícolas e de jardim. Desde há algum tempo que tenho encontrado cardamomo numa "secção exótica" do Jumbo. Mas o melhor é ir a uma casa especializada. Em Lisboa, podemos encontrar locais de venda destes produtos no Martim Moniz (nos túneis de acesso ao metro na estação do Socorro e num centro comercial anexo). No Porto, conheço uma loja na Rua de Cimo de Vila (fica à direita de quem desce da Praça da Batalha para a estação de São Bento, mesmo em frente do entroncamento da Rua do Cativo).

Finalmente, há uma outra confusão sobre a confecção do caril, que é pensar-se que qualquer caril tem de levar leite de coco ou um qualquer preparado à base de coco. O coco é apenas uma opção para obter um caril mais suave, podendo o sabor quente das especiarias ser também balanceado com vegetais (por exemplo, tomate, pimento, beringela, funcho), iogurte natural ou sumo de limão.

Deixo uma sugestão para uma iniciação ao caril caseiro. Não se espante se, ao provar, não souber a... "caril".

Caril
Preparar num pequeno prato a seguinte mistura de especiarias. Estas podem ser trituradas num almofariz ou numa máquina de moer, mas recomendo que não sejam moídas numa primeira experiência, excepto a pimenta. Isto tem a vantagem de se encontrarem os grãos ao comer, o que permite perceber melhor o sabor que cada especiaria confere ao todo. As quantidades são indicativas para 4 pessoas.

  • 1 colher de sopa de sementes de cominho
  • 2 colher de chá de sementes de coentro
  • 1 colher de café de pimenta preta moída no momento
  • 2 colheres de chá de curcuma (açafrão-das-Índias)
  • 2 cravinhos
  • 3 vagens de cardamomo verde (apenas os grãos internos)
  • um pouco de raspa de noz moscada
  • 1 malagueta vermelha (ou 1 colher de café de pimenta-de-caiena ou piri-piri) se desejar mais picante
Refogar em azeite uma cebola picada. Acrescentar depois a mistura de especiarias e deixar fitar durante 1 minuto. Juntar carne cortada em pedaços pequenos. Por razões culturais o borrego é a carne mais utilizada pelos povos do Médio Oriente, mas pode ser usado porco, vitela ou frango. Fritar durante 2 minutos mexendo sempre. Acrescentar um pouco de água (2 ou 3 colheres de sopa) para parar a fritura.

Juntar em seguida 2 dentes de alho picados, 2 tomates cortados em cubos, 1 iogurte natural e sal. Tapar e deixar cozer em lume brando até a carne ficar macia. Mexer de vez em quando e controlar o nível do líquido acrescentado água se necessário. É preferível que fique mais seco (molho grosso) do que excessivamente líquido. Se estiver muito líquido, deixe ferver um pouco mais sem a tampa até atingir uma melhor consistência. No momento de servir, juntar um raminho de coentros frescos cortados finamente. Acompanhar com arroz pilau.

O meu arroz pilau
Refogar uma cebola pequena em azeite. Juntar 2 vagens de cardamomo verde inteiras, 2 cravinhos, 6 grãos de pimenta, 1 folha de louro e 1 pau de canela. Fritar durante 1 minuto. Acrescentar água e sal. Quando a água ferver, juntar arroz basmati. Tapar e cozer durante 10 minutos exactos em lume brando.

Retirar do lume e escoar a água que ainda possa ter. Polvilhar um dos lados do arroz com um pouco de curcuma e o outro lado com mistura vermelha para tandori. Mexer de forma que os pós e o arroz se misturem um pouco mas não totalmente (a ideia é a mistura ficar tricolor). Deixar em repouso durante 5 minutos. Com um garfo, mexer com cuidado para soltar os grãos de arroz antes de servir. O arroz é servido com as especiarias, mas elas não se comem, principalmente o pau de canela e os cravinhos, dado o seu sabor muito concentrado.

Se não quiser um sabor mais acentuado a canela, pode tirar o pau imediatamente antes de juntar o arroz. A mistura vermelha para tandori pode ser encontrada numa loja especializada, mas é apenas opcional. Se não a conseguir arranjar, pode também substituir a operação de coloração final, adicionando 1 colher de chá de curcuma às restantes especiarias no momento da fritura.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Breiquingue niúse

Interrompemos aqui este blog para novos desenvolvimentos sobre as horas de pânico que se viveram à porta da Tasca do Silva, onde um presumível imigrante ucraniano manteve refém o tasqueiro-mor, Sr.Silva, sob a ameaça de um potente corta-unhas, durante mais de 3 horas.

Contactada a GNR para confirmação da nacionalidade do meliante, obtivemos como resposta "Ucraniano? Não foi nada traumatismo ucraniano! Ele é que caiu nas escadas no posto e foi mandar com a cabeça na coronha da pistola do cabo Antunes..."

Após um prolongado impasse, a situação terá sido resolvida quando um habitante aqui do bairro, de seu nome Parménides Juvenal, não se apercebendo do perigo entrou na Tasca para, ao que apurámos, comprar uma garrafa de ginjinha para sua mãe. Este factor de distracção para o sequestrador foi aproveitado pela Brigada de Intervenção Rápida da GNR para entrar pelos fundos do estabelecimento e manietar o perigoso elemento, antes que ele pudesse usar o seu corta-unhas na unhaca do dedo mindinho do sr. Silva, que mede mais de 5 centímetros e é um dos seus orgulhos.

No final, o sr. Silva e Parménides Juvenal saíram da Tasca sob fortes aplausos da população que bloqueava por completo as imediações, enquanto o meliante, de cabeça coberta, era transportado para o jipe da GNR sob imensa revolta do povo, que pretendia um linchamento do sequestrador: "Gatuno, vai prà tua terra! Está aqui um homem cheio de sede vai pra 2 horas e nem se pode chegar ao balcão da Tasca!...ruços dum cabrão!..."

No meio dos desacatos, uma senhora idosa queixa-se de violência policial, pois na retirada do sequestrador, uma cotovelada na cara fez-lhe voar a placa cerca de 15 metros, quebrando dois queixais.

Tentámos obter algum comentário do sr. Parménides, mas o mesmo declarou-se muito nervoso e que só prestaria qualquer declaração na presença do seu..."copo de leite morninho", o qual não foi possível obter.

domingo, 10 de agosto de 2008

O diz c'o urso do presidente

Olá, o meu nome é Parménides Juvenal e moro aqui no bairro. Há quem diga que por aqui nunca se passa nada, mas não é verdade. Ainda hoje, por exemplo, foi um dia de emoções fortes.

Primeiro, foi o zipper das minhas calças que ficou trilhado numa das minhas bolinhas (a esquerda), obrigando-me a esfregar grandes camadas de halibut, o que me deu horas de muito prazer. Depois ficámos a saber pela rádio aqui do bairro (Águas Furtadas-109.99 FM) que, às 20 horas, o presidente da junta ia interromper as suas férias para fazer um comunicado à população, o que era inédito, pois o presidente nem os bons dias costuma dar, a não ser a quem lhe prometa votos.

Bom, na verdade, este dia começou com o meu pai a ficar em casa. Por um lado, foi triste vê-lo assim doente, enquanto ele telefonava para o emprego a dizer que estava com papeira, mas, por outro lado, foi bom vê-lo a recompor-se tão depressa e a propor que fôssemos à praia. Eu parece-me que o que lhe fez bem foi o amor da minha mãe, pois dizem que o amor faz milagres, e na verdade ela ficou tão feliz, tão feliz, de o ver em casa que, cada vez que alguém chegava, tal como o leiteiro, ou o padeiro, ela gritava excitadíssima: "O meu marido está em casa... O meu marido está em casa..." e eles abalavam a correr, certamente para espalharem a boa nova pelo bairro.

E então lá fomos. O caminho demorou pouco mais de duas horas, mas mesmo assim já não chegámos a tempo de apanhar o melhor local e o meu pai já não pôde erguer vedação de arame farpado que normalmente ele mete para reservar um espaço de 2 metros quadrados só nosso, de modo que foi só montar a mesa de picnic, com as geleiras e o garrafão por baixo, enquanto eu e meu pai aproveitámos a sombra da minha mãe, que ficou de pé. Ela ainda quis montar a piscina insuflável para mim, mas eu disse que desta vez não me apetecia nadar. Não é que não estivesse calor. Estava. Tanto assim que até desapertei o botão do colarinho da minha camisa de flanela, mas nadar não me apetecia.

Eu por acaso aprecio bastante os cuidados que a minha mãe tem comigo, porque sei que é para meu bem. Basta ver tanta gente pobre na praia, que não tem roupa para se cobrir, e tem de estar ao sol apenas com umas pequenas cuecas e uns soutiens reduzidos, ou às vezes nem isso. Coitados, ficam uns tempos de papo pró ar, outro tanto virados para baixo. De vez em quando lá vão mudando de posição, num movimento contínuo semelhante a um assado no espeto. Tirando o facto de não ter um pau enfiado no cu. Falo por mim, claro.

Uma das coisas que mais me intriga na praia, é o porquê do meu pai, cada vez que passa um grupo dessas raparigas pobres com pouca roupa, se volta de barriga para baixo na toalha. Quando ele de lá sai, noto que fica na areia uma ligeira cova no sítio do baixo ventre ou, por vezes, uma pequena mancha nos calções, pelo que desconfio que ele já esteja de alguma forma a ter problemas com a próstata.

Ao almoço, estávamos de volta do arroz de feijão com as divinas pataniscas feitas pela Cátia Vanessa, que a minha mãe trouxe da Tasca do Silva, quando às tantas diz o meu pai - “Epá, cum catano! Temos de ir ouvir o Aníbal”, e como o rádio de pilhas tinha ficado em casa, lá tivemos de vir embora, eram 3 da tarde, para evitarmos as filas de trânsito e chegarmos a casa a tempo do comunicado.

O Aníbal Silva é o presidente da junta, mas, apesar do nome, não tem nada a ver com a Tasca do Silva, excepto quando anda em campanha e lá vai distribuir uns autocolantes à clientela do outro Silva para que esta passe a ser clientela dele próprio.

A minha mãe dizia que ele era capaz de ir falar sobre alguns assuntos, enquanto o meu pai era da opinião que ele se iria debruçar sobre alguns temas. Eu não percebo muito de política, o meu forte são mais as colecções de caixas de fósforos, mas achava que o presidente iria falar daqueles problemas que mais se ouvem nas conversas às mesas da Tasca: a falta de dinheiro nas caixas multibanco, a falta de emprego que dê muito dinheiro com pouco trabalho e a falta de vontade de trabalhar de quem tem emprego.

Foi uma verdadeira emissão estereofónica, pois o comunicado foi para o ar em todos os aparelhos de rádio do bairro, excepto os que estavam desligados ou tinham sido atingidos por uma trovoada. Afinal, o que o Aníbal veio trazer foi uma lufada de ar fresco e esperança aos moradores aqui do bairro que pensam que tem uma vida cheia de problemas e de dívidas, mas que ao saber dos problemas que o presidente relatou, pensam: “Afinal existem vidas muito piores que a minha”, ganhando desta forma uma nova força e um novo ânimo para lutar contras as adversidades e dar a volta por cima.

E o que disse o presidente neste discurso verdadeiramente mobilizador? Que a vida dele era uma desgraça desde os 18 anos, altura em que casou com uma mulher que lhe batia todos os dias com um pé de cabra e que o violava, algumas vezes sem o seu consentimento. A sogra entrevada foi viver com eles, na época em que o Aníbal ganhou uma pedra nos rins e uma úlcera no estômago com as preocupações da mãe ter apanhado um problema de alcoolismo e a mulher ter começado a injectar-se nos braços, depois de ter sido despedida por sofrer de incontinência urinária trabalhando como portageira de uma SCUT.

Quando já tudo parecia perdido, uma reunião da Igreja Universal do Reino dos Meus mudou-lhe a vida como que por milagre. Hoje, a mulher já só lhe bate com o cinto e já não chuta nos braços, pois prefere o pescoço. Foi operado ao estômago e por engano tiraram-lhe os dois rins, pelo que já não tem problemas nem da pedra nem da úlcera. A sogra morreu e a mãe já não tem problemas de alcoolismo, ficando-se por simples bebedeiras. Tudo isto pela dízima mais baixa do mercado, de 9,25% dos rendimentos mensais!

Daqui resulta que, o que parecia ser o fim do mundo para Aníbal Silva, quando a amante descobriu que ele era um homem casado, tornou-se apenas um problema para o bairro, pois a amante era presidente da assembleia de freguesia, e sentindo-se enganada, tornou-se mais desconfiada em relação aos actos do presidente da junta, fazendo com que ele tivesse de obter o parecer positivo dela para toda e qualquer acção, coisa que não lhe parecia bem de acordo com a constituição local.

Porra - diz o meu pai - interrompe um gajo um dia de praia a pensar que havia aqui alguma coisa de importante, que iam aumentar o preço das pataniscas vendidas para fora na Tasca e vai-se a ver... tem razão quem diz c'o urso tem uma amante...

Desconfio que o meu pai também não percebe muito de política!

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Férias Trocadas, Férias Gozadas!

Estava o Silva descansadinho na sua casa, lápis na mão e papel à sua frente, porventura escriturando o parco apuro do dia (custa aceitar mas, com a Cátia Vanessa de férias... as pataniscas não são as mesmas!), ou quiçá refazendo a Ementa para o dia seguinte (acrescentando-lhe a "Sopa de Morangos", chamariz doutra tasca vizinha), quando lhe entra, porta adentro, um outro Silva, com "a patroa e os gaiatos atrás"!

Não faltava mais nada! Então não é que estes, tendo anunciado aos "sete ventos" umas férias em "litorais de águas quentes, com tudo pago", resolvem afinal trocar para umas férias "em interiores de águas frias, com tudo a pagar"??! Forretas!!!

No entanto, como Deus ajuda os pobres, e estes ajudam-se entre si, eis que no dia seguinte o Silva residente oferece ao Silva forasteiro (e famelga incluída) uma visita guiada pelas redondezas. Coração grande o deste Homem!

Tasca fechada, montanha arriba, lá foram eles, cantando e rindo!
E foi aqui que descobriram que, pelos interiores que "só os bons conhecem" , também há:

Quintas do Lago

Festivais de Sossego


Auto-Estradas de Paz


Hipermercados de Tranquilidade


Desafios de "Outros Tempos"


... e até Monstros de Beleza


Chegados ao fim do dia, "completamente bêbados" de imagens inesquecíveis e "empanturrados" de sensações únicas, ficou a impressão de que os muitos "Muito Obrigado" ao Silva .. pareceram "poucos".




Contudo ficou uma certeza: valeu a pena "A Troca"!

domingo, 27 de julho de 2008

Barjacking - A tragédia, o drama, o horror

Olá, o meu nome é Parménides Juvenal e moro aqui no bairro. Pelo menos enquanto não for realojado pela Junta de Freguesia, porque a insegurança está a aumentar e hoje fui a primeira vítima registada em Portugal de um caso de barjacking.
Queria aproveitar que já estou no conforto do meu sótão, acompanhando um copo de leite morninho com um palito Larréne, para explicar a quem não saiba que o barjacking é uma evolução do carjacking, mas em que os senhores maus atacam bares, cafés e, neste caso, tascas.
Sei que dizem por aí que o carjacking é uma coisa recente vinda dos Estados Unidos, mas eu sou um tipo que não se deixa enganar facilmente, vai daí fui estudar o assunto e descobri que o carjacking foi inventado pelo D. Afonso Henriques no cerco da tomada de Lisboa, quando mandou o Martim Moniz forçar a entrada num estabelecimento que era o castelo, de modo a que o resto dos meliantes pudesse entrar em força e tomar de assalto aquilo tudo aos mouros. Foi exactamente porque o Martim Moniz ficou entalado na porta, à altura do baixo ventre, tendo levado uma pancada valente no car.., quer dizer, no joãozinho, ou jack em inglês, que ficou o nome carjacking.

Eu sei que há carjacking aqui no bairro, pois ainda no mês passado, a Zundapp do amola-tesouras, o Chico Naifas, foi abalroada por trás por uma acelera toda artilhada e veio de lá um senhor mau e encapuzado que em menos de um foguete levou tudo o que brilhava naquele veículo: as tesouras de aço inoxidável, os retrovisores que tinham sido adquiridos em regime de empréstimo a uma Ford Transit, os guarda-lamas cromados e o dente de ouro que o Chico tinha no maxilar superior.

Se alguém prestasse atenção ao que eu digo, nesta altura estariam a perguntar-me se eu não estava no fundo de um pipo de moscatel, na arrecadação da Tasca do Silva. Nesse caso, eu responderia que sim e explicaria a situação nestes termos.
A coisa deu-se pela manhãzinha, pois o Silva abre a Tasca a horas de dar o mata-bicho aos ucranianos aqui do bairro que trabalham nas obras. O Silva estava a abrir a porta, quando um senhor malandro, com uma meia na cabeça (daquelas de nylon com buracos como as que usam as funcionárias da madame Sissi), se encosta a ele por trás (como fazem as funcionárias da madame Sissi) e aponta-lhe uma coisa às costas (foi aqui que o Silva percebeu que não era nenhuma das funcionárias da madame Sissi).
O Silva cheio de medo de nunca mais ver a sua Adozinda, fez tudo o que o senhor malandro lhe pediu, deu-lhe o dinheiro de caixa, os maços de cigarros Kentucky e o boião de pastilhas Gorila, antes de ser amarrado atrás do balcão, com um pano na boca. Pano esse que era utilizado pela Cátia Vanessa, quando era preciso limpar o balcão do vinho que se entornava no avio de penaltis e copos de 3, pelo que, dado o estado de encharcamento do pano, pelo menos o Silva não ficava com sede.
Na hora de fugir, o senhor malandro corre para a porta, escorrega nas cascas de tremoços que estavam no chão, porque a Vanessa não tinha varrido os mosaicos, cai de encontro à porta que dá acesso à cave, vem por ali abaixo aos trambolhões nas escadas, a arma destranca-se e começa aos tiros para tudo quanto é sítio. Ficou tudo feito em cacos, as lâmpadas do tecto, os presuntos de contrabando que estavam pendurados, o alambique do medronho e a pipa onde eu estava, que rachou ao meio e eu caí dentro dum alguidar de barro, onde repousavam entremeadas e fêveras em vinha d'alhos, para os petiscos dessa noite.
O senhor malandro ainda tentou dizer qualquer coisa, que não percebi bem por causa dos dentes partidos que lhe saltavam da boca. Pareceu-me “Não te mexas, Carvalho”, mas deve ser engano, porque eu não me chamo Carvalho nem estava ali mais ninguém. Antes que eu tivesse oportunidade para lhe chamar a atenção que não me chamava Carvalho, houve um último presunto, com osso, que se soltou da trave mestra e lhe caiu em cima da cabeça, deixando-o inanimado. Coitado.

Bom, mas o que importa é que consegui sair de lá sem problemas de maior, porque eu sou um tipo que está sempre alerta. Malandros e aldrabões, comigo, nunca levam a melhor. Estou a lembrar-me da vez em que um cigano me perguntou se eu queria comprar cavalo, quando eu vi muito bem que o que ele tinha para vender eram saquinhos de plástico com farinha lá dentro. Ou de quando encontrei um tipo aqui na rua que me queria propor um negócio, e eu avisei-o logo que não me deixava enganar facilmente, que até já me tinham tentado vender os Jerónimos e a Torre de Belém mas que eu não sou parolo, nem quando a minha mãe me deslarga a mão para fazer as compras.
Ele deu-me os parabéns por ser tão astuto e disse logo que não estava ali para enganar ninguém, que toda a gente sabia que esses sítios não estavam à venda. Afinal, o que ele queria era propor-me um negócio de estalo, alugando-me o Cristo Rei.
Eu disse para mim, espera lá Parménides, que isto não é coisa para o teu bolso, mas o homem parece que me leu os pensamentos e tratou logo de me sossegar, porque aquilo era uma pechincha, por 20 euros por semana, recuperava-os facilmente só com o dinheiro das entradas cobradas aos visitantes. E se tivesse alguma reclamação a fazer, podia contactá-lo no Palácio de Queluz, que era lá que ele atendia os clientes.
De modos que avaliei a situação e passei-lhe para a mão os 20 euros, não deixando de o avisar:
- Já sabe, se houver alguma aldrabice nisto, o senhor tem-me à perna! É que eu nunca me deixo enganar...

sexta-feira, 25 de julho de 2008

O que fazer com os filetes de pescada?!!!!




Hoje de manhã descongelei filetes de pescada... e vinha para o trabalho a pensar o que fazer com eles. Fritá-los, o banal, não me apetece!!!! E vai daí que me veio à mente o seguinte:

Temperar os filetes com sal, pimenta e alho.

Pegar em dois alhos franceses e cortar só a parte branca às tiras muito fininhas.

Pôr na frigideira azeite e colocar os filetes a alourar de um lado e do outro.

Retirar os filetes e em seguida colocar na mesma frigideira uma cebola picada, miolo de camarão, o alho francês cortado, um pacote de natas e deixar a cozer um pouco. Temperar a gosto.

Dispor os filetes num tabuleiro e este "preparado" por cima. Por fim pôr queijo ralado e levar ao forno.

Eheheeh, foi o que saiu... Isto devido a uma ideia que a D. Cândida me deu esta semana.

Assim não vale, torcer o nariz para os tais "medalhões de pescada"... a ver!!!

Depois logo vejo se faço arroz branco... ou puré para acompanhar...

terça-feira, 22 de julho de 2008

Yuppiiiiiiiiiii!!!!!!

Yuppiiiiiiiiiiii!!

Hoje é a minha FOLGA....ufaaaa!!!!......minha e da PM, lá fomos nós à depilação.....estivemos lá toda a manhã, as rapariguinhas da estética até suavam......”moçoilas de pêlo na benta” comentavam entre elas.

Almoçamos na esplanada….fomos gastar as gorjas ganhas na última semana...foi fixolas disse eu...foi do barril (ou baril?!!!!) disse a minha “cumpincha”.... e lá fomos dar uma voltinha pela praia com o intuito de ver o Parménides de sunga...eheheheheh, sim...ele usa sunga!!!!
Mas nem vê-lo, onde andará?!!!
Até lhe trouxemos uma termos com o seu leitinho...ohh...uma não, duas....uma cada uma!
Isto para o demovermos a deixar a sunga….pertencemos ao Movimento Contra a Sunga.
O que leva os Homens a usarem tal coisa?!!!!











Bem.....como não o encontramos, olhamos em redor....começamos a apreciar o movimento....há com cada um!!!

E é ouvi-los:
“ò meu caralho, "sai-me" da água, tás todo encurrilhado!”
“sai, és mouco?!!?? levas já no focinho!”
“olha que te pára a “congestão”” .............????!!!!!??????
Nós, como somos duas raparigas sensíveis e recatadas, apesar de estarmos habituadas às conversas da tasca (cheias de sumo...de uva ou do que seja) há certas e determinadas conversas, situações, episódios que nos baralha a mioleira, não propriamente as caralhadas em si, mas sim o comportamento das pessoas, ya THE BEHAVIOR, DO THEY KNOW WHAT IT IS THAT????
A violência verbal!!! A falta de paciência que se sente hoje em dia!! A falta de diálogo!!! A falta de harmonia!!!
Aliás faz-me confusão muita coisa: a falta de educação, a falta de civismo, não suporto a inconveniência, a falta de humildade, etc,…..enfim....se calhar ando a exagerar na dosagem!!!
Mas é o Sr. Dr. que teima em não me diminuir a dose.

E há outros ainda que:



“é o gelado OLÁ, é o gelado que se lambe aqui e acolá”
“é o gelado fresquinho é pra menina e pró menino”

In the beach we hear interesting things!!!

Adiante, já estou com um secão…

(quem não tenha percebido nada, a tradução encontra-se disponível mediante cobrança!!!)

BOAS FÉRIAS PARA QUEM AS TEM!!!

sábado, 19 de julho de 2008

É preciso ter lata!

Numa embalagem de tomate em pedaços que existe no mercado, pode ler-se a seguinte recomendação: "Consumir de preferência antes de ver data no fundo da lata". Ou seja, deve consumir-se primeiro e só depois se deve ver a data que existe no fundo da lata, assim em jeito das surpresas lúdicas de que o marketing é fértil. Como é evidente para qualquer pessoa, menos para quem completou a frase obrigatória por lei, o sentido do que ficou escrito é exactamente o contrário do pretendido.

Outras variantes não são melhores. Acho um especial fascínio no encantador "Consumir até ver fundo da embalagem", instrução que decerto tem em vista os consumidores de 6 anos de idade, os quais podem não se aperceber que, chegando ao fundo do recipiente, é escusado insistir pois não há mais.

Estes exemplos mostram a pouca atenção que se dá a muito do que por aí se escreve para que outros leiam. Parece existir uma regra única: se eu percebo, toda a gente tem de perceber. No entanto, seria muito fácil evitar o duplo sentido em ambas as frases. Bastava compô-las evitando o verbo "ver".

Estes exemplos ilustram também em parte o que acontece com a legislação portuguesa. Em geral, é escrita com muitas deficiências. Escrevem-se e publicam-se leis sem que haja o cuidado de testar previamente a sua compreensão junto dos cidadãos, que são, afinal, os principais visados e interessados na maior parte delas.

Mas a coisa, infelizmente, é ainda pior. É fácil provar que as leis são escritas de forma propositadamente complexa, enrodilhada, vaga e subjectiva, a fim de que o cidadão vulgar tropece nuns obstáculos e caia numas armadilhas, pois normalmente isso dá origem ao pagamento de umas coimas, sempre bem-vindas para financiar o eternamente deficitário Estado. Ou tenha de recorrer a juristas e a tribunais para interpretarem a lei, para virem logo outros juristas e outros tribunais interpretarem de maneira diferente, uma actividade verdadeiramente empolgante para quem a faz, embora muito perniciosa para a carteira do tal cidadão vulgar para quem era suposto a lei ter sido escrita.

A preocupação em complicar é tão grande que, quando uma lei estabiliza por algum tempo, logo alguém se lembra de a alterar e assim renovar a dificuldade da sua leitura e aplicação. O caso mais espectacular verifica-se quando as próprias alterações, de forma recursiva, geram por si sós, sem que seja alterada uma única palavra do texto, nova modificação complicativa. Foi o que aconteceu com a recente renumeração dos artigos do Código do IVA (pelo Decreto-Lei n.º 102/2008 , de 20 de Junho).

Exemplifiquemos algumas das consequências da renumeração de um articulado como este:

(1) Quem lida usualmente com a lei e a ela tem de se referir, conhece de cor o número de muitos artigos, o que facilita o seu trabalho. Esse conhecimento fica desactualizado num ápice, obrigando a uma reaprendizagem de uma coisa exactamente igual. Um professor, por exemplo, não pode continuara referir-se às regularizações do artigo 71.º, pois elas, ao fim de vinte anos nesse sítio, foram agora morar para o 78.º.

(2) Da mesma forma, inúmeras referências em textos técnicos ficaram desactualizadas. Um profissional ou um estudante que compulse a lei actual enquanto lê um artigo fundamental publicado em 2006, conclui que a bota não bate com a perdigota.

(3) Milhões de facturas e outros documentos comerciais pré-impressos, bem como ferramentas como carimbos e programas informáticos têm de ser destruídos, substituídos ou alterados, pois as referências à lei ficaram erradas.

Lê-se no preâmbulo do referido decreto-lei que a renumeração foi feita pelas "mesmas razões" já nele anteriormente enunciadas. Se formos à procura delas, concluímos que a renumeração foi feita para aprofundar a qualidade dos actos normativos, para simplificação, numa perspectiva de "legislar melhor", bem como permitir uma melhor "compreensão sistemática" da própria lei.

Desconfio que quem legisla em Portugal são os mesmos fulanos que fazem os rótulos para as latas de tomate em pedaços. Quase que apostava. Lata, pelo menos, não lhes falta.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Meu querido mês de Agosto

Finalmente as férias e tudo o que de bom elas trazem!

Pensando melhor – Será assim tão bom quanto isso? – É que nem sei o que vos diga, pois está um indivíduo mortinho que as férias cheguem, mas o que acontece nessa altura?

O que acontece é que um gajo, teso como um carapau, limita-se a acampar ali na esplanada da Tasca, bebendo umas bejecas e comendo uns camarões do Eusébio, que o Silva nestas alturas costuma ser bondoso e aponta a despesa no livro. Até aqui tudo bem, o problema é que os altifalantes ali da igreja, por sinal a precisar de um remédio prá rouquidão, não se calam nem por um caraças e ei-los a debitar musicas pimba e outras que tais, tudo dependendo do repertório de que dispõe o homenzinho a quem se alugou a instalação sonora.

Bem sei que é por esta altura que aqueles indivíduos, os políticos, aqueles que “trabalham” no parlamento e afins, vão de férias. Mas porra, em vez de termos descanso, o que acontece? – Apanhamos com uma música que não sei até que ponto será tão ou até mais nociva do que aquela que levamos dos políticos!

E Setembro está já aí … o tempo não pára e lá vamos nós apanhar novamente com a musica dos pitróis, do deficit e outras queixinhas que tais.

Por falar em queixinhas, fonix, é o que eu digo, vou ter de fugir da esplanada, que o tio Jaquim hoje já me falou para aí umas cinquenta vezes na dor que lhe arrepanha as costas todas!

Entretanto, para não vos maçar mais com palavras que reflictam este meu “dilema veraneante”, nada como vos demonstrar os meus sentimentos através duma coisa que decidi chamar de “Joke Box”, ou lá como se chama aquela máquina inventada pelos amaricados e que havia ali na barraca dos matraquilhos do Sousa. Ora aqui vai:

(nota: em cada clip devem clicar na palavra "blogger" para ouvir, e na mesma palavra para parar, embora fosse preferível ouvir tudo até ao fim. Isto porque tive de minimizar os ditos cujos, de forma a que as obras-primas do Choninhas não fossem lá muito para o fundo)


CONSTITUÍÇÃO ... fosgasse que ele há gajos que só com um desenho é que atingem ... (da esquerda para a direita … e de cima para baixo): Santana “Coisinha” Lopes, Mário “Areias” Lino, Marques “Fantasminha” Mendes, Paulo “Roxinol” Pedroso, Manuela F. “Bicho” Leite, M.ª de Lurdes “Taralhouca” Rodrigues, Paulo Portas de “Variações” e … a extremo esquerdo (consta-se que vai passar a jogar ao centro) … José “Moranguito” Sócrates.

Boas férias, que eu vou ali e já venho!