domingo, 24 de maio de 2009

24 - Operação Moelas (II)



- Se alguém nos pode ajudar, ele é esse alguém – disse o inspector Agostinho, enquanto acompanhava o Silva ao T1 de Jack Bauer – Ele é um dos duros, sr. Silva, ex-comando, ex-legião estrangeira na Somália, ex-Securitas no abastecimento de caixas multibanco da Cova da Moura, ele saberá como lidar com esta emergência.
- E o inspector sabe isso tudo porque?... - perguntou o Silva, tocando à campainha de Bauer.
- Ele arranjou-me a máquina de lavar lá de casa. Reformou-se da vida activa e optou pelo low-profile aqui no bairro, fazendo biscates ocasionais.
- Inspector Agostinho! - Bauer abriu a porta ainda em pijama – Não me diga que a sua esposa tem outra vez calcário na serpentina...
- ...da máquina? Não, Jack, o teu arranjo foi perfeito. Temos aqui uma emergência e precisamos da tua ajuda para salvar a tasca do Silva.

O inspector contou rapidamente o que tinha acontecido e o que estava em jogo, face ao beberete de apresentação da candidatura de Aníbal Silva.
- Mas eu nem gosto de moelas! Porque haveria de ir em busca da receita? Não, não contem comigo, estou reformado dessas vidas.
- Estou certo que haverá alguma coisa que possamos fazer para o convencer.
- Não há. Só quero paz, sossego e uns biscates para ganhar uns trocos.
- Se não estou enganado, Jack, - atalhou o inspector – andas há mais de quatro anos para conseguir uma licença para fechar a varanda com uma marquise de alumínio, não é verdade?
- Sim, mas...
- Estou certo que a tua ajuda para salvar este evento não será esquecida pelo presidente da junta e em breve a tua licença poderá sair. Que dizes?

* * *

Não longe dali, no principal (e único) espaço verde do bairro, o jardim Arq.º Carrapatoso, um grupo de três homens de tez morena, estatura mediana, vestidos de negro e com um leve aroma a orégãos, aguardavam junto à paragem do autocarro 27.
- كنت تعتقد أن هؤلاء الكفار يأكلون الخراء؟ الحوصلات؟ (*em português: Tu acreditas que os infiéis comem estas porcarias? Moelas?)
- ولكن في نهاية المطاف ، ما هو لمصلحة المنظمة في سرقة هذه ورقة وصفة؟ (* Mas afinal, qual é o interesse da Organização em roubar esta folha de papel com uma receita?)
- اغلقت حتى نكح النجاسة ، محمد! الغرض من هذه المنظمة ليست للبحث ، للوفاء ، والله (* Cala-me essa boca impura, Mohamed! Os desígnios da Organização não são para discutir, são para obedecer, tal como a Alá.)
- اغفر لي ، أشمد ، أنا تنتهك 7 في الجنة من الحور العين في العودة إلى وضع المنظمة في السؤال... هو سخيف الحافلات يأتي أبدا؟ (* Perdoa-me, Achmed, que me violem as 7 virgens do paraíso se voltar a pôr a Organização em causa... E a porra do autocarro, nunca mais vem?)
Fruto do pouco tempo de permanência e do grau de desconhecimento do modus vivendi dos portugueses, os três indivíduos desconheciam que, naquele dia, não haveria de chegar qualquer autocarro devido a mais uma das habituais greves, em luta por... já ninguém sabia muito bem o quê.
* * *

- Posso utilizar alumínio anodizado e persianas verdes? - atirou Bauer após pensar uns instantes.
- Irei pessoalmente assegurar-me disso, Jack.
- OK, contem comigo. Preciso das plantas do bairro no meu iphone, e preciso delas já!

quarta-feira, 6 de maio de 2009

O engenheiro Simões

Esta história é verídica. Contou-ma o meu amigo AJ:

O engenheiro Simões? É pá, o engenheiro Simões é o homem mais forreta do mundo! Aquilo é mais agarrado ao dinheiro que sei lá o quê. Já o pai era um grande forreta, podre de rico mas forreta, e ele saiu ao pai. Olha, eu tenho uma história passada com o engenheiro Simões que mostra bem a forretice deles. O engenheiro Simões, na altura em que entrou para a Universidade andava a chatear o pai pra lhe comprar um automóvel. Isto aí por volta de 1965. Ó pai, compra-me o carro! O pai não comprava coisa nenhuma. Ó pai compra-me o carro! E o pai não comprava. Ó pai compra-me lá o carro! E o pai, nada.

O engenheiro Simões andava pior que estragado com o pai porque ele não lhe comprava o raio do carro. Uma noite, estávamos eu e o engenheiro Simões a jogar bilhar na Associação às quatro da madrugada e o engenheiro Simões estava danado e não parava de chamar forreta ao pai. Dizia ele: aquele sacana não há meio de me comprar o carro, é um forreta do caraças, nunca vi ninguém tão forreta como ele! E coisas assim...

Acontece que nessa mesma noite em que eu jogava bilhar com o engenheiro Simões, morre-lhe o pai. Morre-lho o pai e o engenheiro Simões, que era filho único, herdou nessa noite toda a fortuna. Sabes o que aconteceu? O engenheiro Simões só comprou o carro passados quatro anos depois do pai morrer! Quer dizer, o pai era uma grande forreta, mas o gajo conseguia ser ainda mais forreta que o pai!!

Ouve, podes ter a certeza, o engenheiro Simões é o homem mais forreta do mundo!

sexta-feira, 1 de maio de 2009

E depois de tanta especiaria...

E depois de tanta especiaria, a minha loja de especiarias preferida. Não tanto pelas especiarias em si, mas pelo dono e pelo ambiente da estreitíssima rua. Fica na Kalçin Sk, mesmo ao lado da Mesquita de Rüstempaşa.

Loja de especiarias em Kalçin Sk


Cúpula da Mesquita de Rüstempaşa

Biryani de frango

Biryani é um prato à base de arroz, carne e especiarias. Durante anos o biryani não me despertou grande entusiasmo, tendo em conta algumas receitas que experimentei. A coisa mudou totalmente de figura quando fiz um biryani baseado na receita publicada por Maria Fernanda Noronha da Costa e Sousa no seu livro Sabor de Goa (Assírio e Alvim). Devido a dois ou três pormenores de confecção, o resultado é absolutamente extraordinário.

É um bocadinho exigente na quantidade de ingredientes, mas vale a pena juntá-los todos. Eis a minha versão, para 4 ou 5 pessoas:

Ingredientes (por ordem de entrada em cena)

Peitos de frango
Óleo
Cebolas
Cardamomo verde
Cardamomo preto
Cravinhos
Cominhos moídos
Coentros moídos
Piri-piri
Curcuma
Louro
Pau de canela
Alho
Gengibre
Sal
Iogurte natural
Água
Arroz basmati
Nigela
Coentros frescos
Malagueta verde
Pimenta moída
Limão
Manteiga
Leite

Receita

Cortar os peitos de frango em pedaços pequenos.

Numa frigideira, fritar em óleo duas ou três cebolas cortadas às rodelas, até algumas ficarem bem castanhas. Reservar.

Esmagar 4 cardamomos verdes, 1 cardamomo preto e 4 cravinhos. Juntar 1 colher de chá de cominhos moídos, 1 colher de chá de coentros moídos, um pouco de piri-piri, um pouco de curcuma, uma folha de louro, um pau de canela, 3 dentes de alho picados e um pedaço de gengibre cortado finamente.

Num tacho suficientemente grande para levar todos os ingredientes, refogar uma cebola. Juntar as especiarias e fritar durante um minuto. Juntar o frango e fritar durante mais um minuto. Temperar com sal. Juntar 2 iogurtes naturais, envolvendo bem. Tapar o tacho e deixar estufar em lume médio, mexendo de vez em quando e vigiando até que o molho seque e a mistura volte a fritar. Juntar um pouco de água de forma que fique com um molho grosso. Deixar ferver durante 2 minutos.

Noutro tacho, cozer arroz basmati em água, sal, meia folha de louro e 1 colher de chá de nigela durante 10 minutos. Escorrer a água.

Sobre o frango estufado espalhar a cebola frita, depois um pouco de coentros frescos picados e malagueta verde picada. Temperar com pimenta preta moída. Cobrir com o arroz. Regar com sumo de 1 limão. Colocar por cima 4 cardamomos verdes inteiros e 4 lâminas finas de manteiga sobre os cardamomos. Regar com 6 colheres de sopa de leite onde se dissolveu meia colher de chá de curcuma. Tapar o tacho e deixar em lume muito brando durante 10 minutos.

Servir com tzatziki em taças individuais.

A nigela é opcional, pois não será fácil de encontrar. Ver aqui informação adicional sobre alguns ingredientes e locais de compra.

Tzatziki

O tzatziki é uma mistura de iogurte com pepino, óptimo para o tempo quente que se avizinha. Pode ser servido de diversas maneiras, nomeadamente como entrada, como acompanhamento de carnes grelhadas ou para rechear sandes. Uma outra hipótese é servi-lo em pequenas taças individuais, para ir refrescando o palato ao longo da refeição.

Descascar e cortar pepino em quatro pedaços, ao comprido. Retirar a parte interior que contém as sementes. Cortar depois em pedaços muito pequenos. Temperar com sal e reservar durante 20 minutos no frigorífico. Escorrer, misturar com iogurte natural e temperar. As quantidades de pepino e de iogurte podem variar para obter a consistência preferida.

O tempero também pode variar consoante os gostos. As receitas mais tradicionais incluem alho, hortelã e sumo de limão. Mas também pode levar apenas azeite e substituir a hortelã por outras ervas, como salsa ou tomilho. Servir fresco.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Um debate para lamentar

Assisti hoje a uma aula de Economia com alunos dos 11.º e 12.º anos (ensino secundário). Os alunos estavam divididos em três grupos e cada grupo tinha trabalhado na aula anterior num problema da área económica. A aula a que eu assisti consistiu numa recriação de um debate e votação na Assembleia da República. Cada grupo apresentava o seu problema e as respectivas propostas de medidas para as solucionar; os grupos restantes tinham depois uns minutos para formular perguntas ao grupo expositor; ao fim de algum tempo de debate, seguia-se a votação.

O que mais me impressionou foi o registo crítico adoptado pelos grupos que tinham de fazer as perguntas. Todas elas tiveram em mente levantar obstáculos, denegrir as ideias e desconfiar das propostas apresentadas. No entanto, a maior parte dessas propostas continham ideias muito correctas. Corolário desta forma de ver as coisas: três problemas, três debates, três votações desfavoráveis, três conjuntos de soluções rejeitadas.

A páginas tantas, eu já me via a assistir a um debate parlamentar em S. Bento. A única diferença era que, aqui, os alunos tratavam-se por tu e não por vossa excelência.

No fim, fiquei a pensar sobre todo este espírito negativista e conflituoso de debater os problemas. Será que os garotos têm aprendido os vícios dos senhores deputados? Ou será que os senhores deputados é que ainda não perderam os defeitos da garotada?

segunda-feira, 27 de abril de 2009

O ciclo zoológico das enfermidades

Em 1999 as vacas andavam loucas.
Em 2005 as aves tinham gripe.
Finalmente em 2009 chegou a vez dos porcos.
Quem se seguirá?
Eu aposto nas sardinhas, lá para 2014.

sábado, 25 de abril de 2009

24 – Operação Moelas



- ...e é com todo o gosto que anuncio a tomada de decisão unânime do comité local do nosso partido, na prossecução dos nossos ideais de progresso para o nosso bairro, de luta contra a oposição que nada mais faz do que denegrir o nosso trabalho através de uma campanha negra, torpe e soez, de ataque a princípios éticos que nos devem orientar a todos. É contra essas figuras mesquinhas e rasteiras que, meus camaradas, tenho o prazer de anunciar a recandidatura de um homem que está aqui para servir a política e não para se servir dela. Dr. Aníbal Silva, a presidente da junta!...
A sala da sede local do PITA (Partido Independente Totalmente Apartidário) rompeu numa onda de aplausos que ecoaram como um tsunami de legitimação política à recandidatura do actual presidente da junta de freguesia, totalmente inesperada face às últimas sondagens na barbearia do Almerindo.

* * *

Na Tasca do Silva o momento era de apreensão enquanto o próprio telefonava para a esquadra local.
- Tele-esquadra bom dia, fala a agente Marta, em que podemos ajudar?
- Oiçam, fala o Silva da tasca, têm de mandar cá alguém com urgência, pá! Fui assaltado por uns manguelas, deram-me uma pancada...
- Muito bem. Vamos então tomar conta da ocorrência, queira fornecer-me o seu número de cartão do cidadão, por favor.
- Cartão do cidadão?? Mas eu ainda não tenho isso, pá! Preciso que me mandem aqui uma brigada...
- Se não tem cartão do cidadão o preenchimento da queixa irá ser mais demorado, sr. Silva. Queira dizer-me o seu número de contribuinte, por favor.
- ... mas vocês estão a mangar comigo ou quê? Estou a dizer que fui assaltado por três tipos, que me deram uma pancada...
- O sr. Silva acalme-se, não está a colaborar nem a facilitar a nossa tarefa. Vamos lá, não tem à mão o seu número de contribuinte, sabe ao menos o nome dos indivíduos que diz que o agrediram?

* * *

12.30H, na sede do PITA:
- Tô, Silva? Então esses ossos? Ouve, tenho de ser rápido porque tenho o telemóvel a ficar sem bateria. Amanhã, ao meio dia, o dr. Aníbal Silva vai anunciar a recandidatura à junta numa mega patuscada e decidimos que tem de ser na tua tasca..quê? Foste assaltado e tens aí a polícia?... Sempre na brincadeira este Silva, mas quem é que ainda não foi assaltado neste bairro, pá?! Mas isso agora vai acabar com a candidatura do Aníbal, a segurança é uma das suas prioridades... Pá, cala-te lá um bocadinho. Ouve, tem de ser aí, sabes bem que os teus pipis e moelas te trazem mais clientes do que os jogos da SportTV, pá, são famosos até ao Algarve, portanto não há melhor ex-líbris do bairro do que as tuas moelas... hehehe... tuas é como quem diz... mas a receita é tua, e em termos de imagem política temos de apoiar o que é nosso, a imprensa tem andado um bocado hostil, sabes como é... Portanto, não te esqueças, capricha nisso, amanhã ao meio dia, patuscada para 20 pessoas, imprensa incluída. A gente depois faz contas, ó Silva...

* * *

Três horas depois, chegava à tasca o inspector Agostinho, responsável pela ocorrência e, coincidentemente, o único agente disponível na esquadra, que estava com falta de pessoal, dado todos os agentes estarem ocupados com a segurança de um carregamento de Magalhães que iriam ser distribuídos nas escolas do concelho.
Rapidamente, o taberneiro contou como tinha sido assaltado nessa manhã, após ter levado uma pancada que o deitou por terra, ou melhor, pelos mosaicos da tasca. Estranhamente, apenas tinha dado pela falta do boião de rebuçados do dr. Bayard que estava normalmente em cima do balcão, e pelo arrombamento do cofre onde guardava o caixa do dia e outras preciosidades. O dinheiro estava lá todo, mas tinha desaparecido a famosa receita, que tantos e tantos clientes lhe granjeara para o estabelecimento e que iria ser o prato principal do beberete do presidente da junta, daí a menos de 24 horas – as moelas à Silva!
- Epá, cum catano, - o Silva agarrou-se aos poucos cabelos que lhe restavam – o que é que eu vou fazer com esta gente toda amanhã?...
- A única solução que vejo, – disse o inspector Agostinho, guardando o seu bloco de notas na gabardina – dado que existe esta urgência e eu não posso dispensar mais pessoal, é utilizarmos ajuda externa...
- Pensa mesmo que o Obama irá intervir nesta questão, sr. Inspector?
- Estou a falar de ajuda externa às forças da ordem, sr. Silva! Alguém da máxima discrição e confiança, que nos dê garantias de resposta rápida. Um homem que seja capaz de matar dois cajados com o mesmo coelho. E eu penso que temos esse homem aqui mesmo, no bairro...
- Não está a pensar no mesmo que eu?...
- Não estou certamente sr.Silva, até porque o corpo do Brad Pitt apesar de ser bastante sensual e sexy quando suado, estar bem musculado e proporcionado... não me atrai particularmente. Estou a pensar em Jack Bauer!

domingo, 15 de março de 2009

THE T-FILES - Encontros Imediatos do Grau Esquisito (final)


TRASEIRAS DA TASCA DO SILVA
SEGUNDA – 21H55

Tendo recuperado a sua autonomia de saídas nocturnas, Parménides surgiu com o seu saco de lixo e todos os que o aguardavam sustiveram a respiração. Não só pela ansiedade, mas também pelas tripas de peixe vagamente tóxicas contidas na embalagem.
E foi quando Parménides se preparava para largar no contentor aquela arma de destruição maciça sob a forma de saco de lixo, que o brilho verde voltou a surgir por detrás dos caixotes. No silêncio da noite, a luminescência daquele ser anunciava um momento de dimensão intangível, dificilmente contabilizável, mesmo pelos novos normativos internacionais. Silêncio esse, que pouco durou:
- Lá está ele! - ecoou na noite.
- O Parménides falava verdade...- disse outra voz -...é um ET!!!

Em pouco menos de nada, Parménides, o ecoponto e o ser de brilho verde estavam rodeados por uma multidão de habitantes do bairro, que tinha aguardado na penumbra a confirmação daquele momento. Assustado com a cena, a figura balbuciou:
- ...Viktor gostar de...Kristiano Runaldo?...
- Ele disse que gosta do Ronaldo! O gajo é panilhas!... - acusou alguém.
- Vamos-lhe ao focinho. Não queremos panilhas no bairro! - gritou histérica a drag-queen oficial daquela zona, temerosa da concorrência extra-planetária.
- Aaahhh...é um monstro...matem-no!...
- Todos para trás! - a voz firme era de Dana Scully, que, surgindo do nada, se interpôs entre a multidão em fúria e a atónita figura verde, apontando para ele a sua lanterna – É apenas um emigrante clandestino que estava aqui escondido...
- Aaahhh...é um emigrante clandestino...matem-no!...
- Parem imediatamente. - Dana sacou do coldre e elevou acima das cabeças a sua arma, provavelmente descarregada - Este cidadão está sob custódia do CIS e vai ser levado para interrogatório.
- Sim, sim, é um emigrante – desdenhou o Almerindo do salão de barbearia – Eu estive na guerra em Angola e na Guiné e sei bem o que é um emigrante, minha senhora. Nunca lá vi nenhum verde. Então o que é esse brilho à volta dele, hein?
- Este senhor, é Viktor Zarkov, um emigrante ilegal ucraniano e desapareceu quando o SEF se preparava para o deter e repatriar. Descobrimos depois que tinha andado a trabalhar na remodelação das instalações de uma tal madame Sissi, aqui no bairro, onde teve um acidente de trabalho ao montar um anúncio de néon para o estabelecimento. O anúncio quebrou-se, soltando o gás fréon que dava luminescência verde às letras, o que lhe contaminou o corpo, deixando-o com este brilho. Daí para cá, como nunca mais arranjou trabalho e vivia com medo de ser detido, passou a viver escondido de dia e a sair apenas à noite, para arranjar comida.
- Porra, afinal o gajo é um trabalhador, não podemos aviar nele... - lamentou-se um popular – Tem a certeza que ele não é panilhas?

Retornando ao lar, enquanto as suas pernas não cediam às emoções daquela noite, Parménides sentiu de novo um arrepio de frio pela coluna abaixo, ao reparar que, encostada a um canto escuro, uma figura estranha, semelhante a um peluche algo atarracado, irradiava uma aura em tons de verde, como que um brilho que acompanhava todo o corpo, simultâneamente atraente e repulsivo, e que tinha numa das extremidades do corpo, um membro que balouçava em rápidos e incisivos movimentos.
E então, a criatura emitiu som.

De uma voz grave, rouca e não humana, saiu um som arrastado:
- Aaauuu...
O cérebro de Parménides perdeu o controlo sobre o seu corpo e a razão cedeu lugar à emoção. O seu coração disparou a ordem, a bexiga aliviou-se e as pernas desataram a correr o mais rápido que podiam a caminho de casa, deixando para trás aquele cão verde, que trazia na coleira uma placa com os dizeres “Я належу до Віктора Zarkov. Якщо я вважаю, повертається до господаря ”, em português, “Pertenço a Viktor Zarkov. Se me encontrares, devolve-me ao dono”.

segunda-feira, 9 de março de 2009

O Clube dos Contadores de Histórias

O Clube dos Contadores de Histórias é uma actividade desenvolvida na Escola S/3 Daniel Faria, de Baltar. Todas as semanas é publicada uma pequena história com intuitos pedagógicos, que pode ser recebida em correio electrónico. Esta actividade pode também ser seguida em http://www.prof2000.pt/users/historias/

São histórias simples, mas que nos levam à reflexão sobre valores essenciais da vida humana. A título de exemplo, aqui fica a história da passada semana.

Apenas um rapaz

Era uma vez um rapaz bravio que gostava de pregar partidas e fazer matulices, só por embirração. Era muito antipático este rapaz.
Mas emendou-se. Eu conto como foi.
Um dia, por maldade, deu-lhe na veneta atormentar uma pobre velhota, que vivia numa casinha pobre, à beira do povoado. Foi para uma pedreira que havia perto e pôs-se a atirar pedras e a rebolar pedregulhos, que iam cair no quintal da velhota. Para o que lhe havia de dar!?
No fim do seu feito, já cansado, aproximou-se da casa da velhinha, para ver de perto os resultados da sua proeza. Andava a velhinha a recolher as pedras, espalhadas pelo quintal.
— Foi uma bênção que me caiu do céu — dizia a velhinha. — Precisava, há que tempos, de consertar o muro do quintal, mas não tinha forças para trazer tantas pedras. Se não fosse esta avalanche...
O rapaz ficou de boca aberta. E mais sem fala ficou quando a velhinha lhe propôs:
— Bom rapazinho, importas-te de me ajudar a consertar o muro?
Ele, que tinha de fazer de conta que era um bom rapazinho, não teve outro remédio. Passou o resto do dia a acartar pedras, as pedras que ele lançara do alto do monte.
No fim da tarefa, a velhota agradeceu-lhe o trabalho e deu-lhe um grande boião de mel. O rapaz lá se foi, cansado e a lamber os beiços, um tanto confundido. À noite, quando se deitou, estava cá com uma dor nas costas, que não lhes digo nada! Mas regalado com o mel que a velhinha lhe dera.
Ora pois! Serviu-lhe de emenda. Mudou de intenções. Não posso garantir se, dessa vez em diante, nunca mais pregou partidas. Um diabinho não se transforma de repente num santinho. É exigir demais. Mas, na verdade, deixou-se de brincadeiras tolas.
Sem que possa ser considerado um virtuoso rapazinho, também já não é um venenoso rapazote. Nem rapazinho, nem rapazote. Apenas um rapaz. Nem muito mau, nem muito bom. Como quase toda a gente, aliás.

António Torrado

domingo, 8 de março de 2009

Coisas que não são o que são

As coisas são o que são. Mas há excepções. Há coisas que não são o que nós dizemos que elas são. Não estou a referir-me a ilusões de óptica ou a outros erros de perspectiva. Há coisas que toda a gente vê que são uma coisa, mas diz descaradamente que é outra.

Um dos meus exemplos preferidos são os recibos verdes. Toda a gente fala nos recibos verdes e toda a gente sabe que se trata daqueles recibos de cor verde que os profissionais liberais passam. O senhor doutor, o senhor engenheiro, o senhor arquitecto... todos eles passam recibos verdes. Há quem passe recibos verdes indevidamente, mas isso é outra história.

O recibo verde tem três características fundamentais. A primeira é que se trata de um recibo. A segunda é que é verde. A terceira é que é azul.

O azul é a cor oficial do IRS. Por isso os recibos são azuis. Os verdes, claro.

Uma pesquisa no Google por "recibo verde" nas páginas de Portugal indica que existem cerca de 27.900 páginas com esta expressão. A pesquisa por "recibo azul" encontra apenas cerca de 85. Mais significativo não podia ser. Os recibos azuis praticamente não existem, apesar de diariamente serem passados centenas deles. Por sua vez, os recibos verdes vêem-se por todo o lado, apesar de não existirem.

Através deste exemplo podemos compreender que, se as coisas são o que são, há coisas que não são o que nós dizemos que elas são. Provavelmente o leitor estará neste momento a perceber finalmente alguns mistérios relacionados com justiça, liberdade, democracia, futebol, televisão, jornais, emprego, sexo, educação, clima, preços, comércio, religião, arte, viagens, saúde, leis, hábitos, instituições, electrodomésticos e coisas assim.

Cascata e laranjal

Aqui, acabei por não mostrar as cascatas. Há dias voltei lá. Desta vez achei que esta imagem merecia ser postada.


Já agora, o laranjal:

sábado, 28 de fevereiro de 2009

THE T-FILES – Encontros Imediatos Do Grau Esquisito (IV)

ALGURES NO BAIRRO
SÁBADO – 21H29

Nessa mesma noite, e receando que o desgosto que ainda consumia o seu filho pela perda do animal de estimação o levasse a cometer loucuras como chegar a casa depois da dez da noite, a mãe de Parménides acompanhou-o na sua saída nocturna para levar o lixo ao ecoponto, nas traseiras da Tasca.

Secretamente, Parménides ansiava por encontrar de novo aquele ser luminescente como forma de restabelecer a confiança da sua mãe na sua palavra, embora também soubesse que tal encontro imediato elevava as probabilidades do terminal do seu aparelho urinário deixar de vedar. A separação do lixo decorreu sem novidades, a não ser que o contentor amarelo estava cheio já não levando a última lata de conserva, que ficou do lado de fora. A noite estava fria e a respiração provocava pequenas nuvens de vapor à saída do nariz.
A rua estava deserta... mas nada aconteceu.

Parménides e sua mãe já dobravam a esquina no regresso quando um barulho metálico violento os fez olhar instintivamente para trás. E ficou provado que o jovem não mentira. Um vulto de luminescência verde tinha tropeçado na lata de sardinhas de conserva junto ao ecoponto amarelo, indo embater de cabeça no pilhão adjacente, derrubando-o, e soltando uma interjeição imperceptível, qualquer coisa como “não-sei-quê-dassss”!

Assustado por perceber que tinha sido descoberto, o vulto fugiu de vista, coxeando entre os caixotes de papelão que atravancavam o passeio, fruto da nova remessa de presuntos serranos que o Silva encomendara para o seu estabelecimento.
- Meu filho, eu devia ter acreditado nos teus olhos!
- Mas já não é preciso, mãe! - disse Parménides, contente por ter provado a sua razão e pelo comportamento meritório do seu aparelho urinário – Temos outro tipo de provas.

E dito isto, apontou para a câmara de vigilância instalada pelo Silva. Escusado será dizer que, em agradecimento pela remoção do psicótico engraxador da frente da loja, o Silva lhe facultou as gravações de vídeo daquela noite a título gratuito, o que constituiu uma liberalidade não declarada para efeitos de imposto do selo.

Como forma de repor a integralidade da honra do seu filho, que nunca fora grande coisa desde que fora apanhado completamente vestido no balneário das colegas do preparatório enquanto estas tomavam banho, a mãe de Parménides forneceu as imagens ao jornalista da “Dica da Semana”, que na edição seguinte titulava “Homem verde destrói reciclagem – uma contradição ecológica?”. A tiragem foi insuficiente para a procura e em menos tempo que leva Marcelo Rebelo de Sousa a ler um livro, todo o bairro soube da história.

E nessa noite, em todos os cantos escuros da rua das traseiras da tasca, em todas as zonas de penumbra, em todas as sombras de candeeiros, estava alguém aguardando a chegada de Parménides Juvenal, do seu lixo e dos homens verdes.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Um doce tormento

Uma das melodias mais bonitas que eu conheço foi escrita pelo compositor Claudio Monteverdi (1567-1643). É também uma belíssima canção sobre o clássico amor não correspondido. Andam por aí várias versões, mas eu gosto particularmente desta:



Si dolce è 'l tormento
Ch'in seno mi sta,
Ch'io vivo contento
Per cruda beltà.
Nel ciel di bellezza
S'accreschi fierezza
Et manchi pietà:
Che sempre qual scoglio
All'onda d'orgoglio
Mia fede sarà.

La speme fallace
Rivolgam' il piè.
Diletto ne pace
Non scendano a me.
E l'empia ch'adoro
Mi nieghi ristoro
Di buona mercè:
Tra doglia infinita,
Tra speme tradita
Vivrà la mia fè.

Per foco e per gelo
Riposo non hò.
Nel porto del Cielo
Riposo haverò.
Se colpo mortale
Con rigido strale
Il cor m'impiagò,
Cangiando mia sorte
Col dardo di morte
Il cor sanerò.

Se fiamma d'amore
Già mai non sentì
Quel riggido core
Ch'il cor mi rapì,
Se nega pietate
La cruda beltate
Che l'alma invaghì:
Ben fia che dolente,
Pentita e languente
Sospirimi un dì.

Claudio Monteverdi
Si dolce è 'l tormento
Accordone com Marco Beasley (voz) - La Bella Noeva
Alpha, 2003

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Salada de tomate

O meu amigo Norberto, Deus o tenha em descanso eterno depois de um trágico acidente que o levou, ainda novo, deste mundo, detestava tomates. Um dia, vítima de uma emboscada na guerra colonial, teve de passar várias horas abrigado do inimigo sem que tivesse quaisquer mantimentos. Ao fim de algum tempo a fome começou a apertar. E como havia ali mesmo ao lado um tomatal, o pelotão, muito naturalmente, atacou os tomates.

Norberto resistiu, pois tomates não era comida que entrasse na sua boca. Mas, ao fim de angustiosas horas de jejum, a fome venceu. E a partir desse dia o meu amigo passou a ver os tomates com outros olhos. Ou melhor, com outra boca. O solanum lycopersicum tinha ganho mais um adepto.

Para quem não gosta de salada de tomate, não é necessário ir à guerra para passar a gostar. Basta experimentar esta receita:

Num escorredor, colocar tomates às rodelas, se possível de diferentes cores e estados de maturação. Acrescentar também alguns tomates-cereja inteiros. Temperar com sal grosso e deixar escorrer durante 20 minutos, mexendo de vez em quando.

Colocar os tomates numa saladeira e polvilhar generosamente com orégãos. Juntar um dente de alho esmagado em puré (usar utensílio próprio ou um raspador), malagueta vermelha cortada finamente, vinagre e azeite. Mexer bem para misturar todos os ingredientes.

Acrescentar pedaços de queijo mozarela (em bola). Servir como entrada ou acompanhamento.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

O casamento entre pessoas do mesmo sexo

Debate na TV sobre o casamento dos homossexuais. Vi com muito interesse. À partida, a minha opinião fundamentava-se em 90% de razões a favor e 10% contra. No final do debate, a balança passou para uns meros 60-40. Não que os argumentos a favor do "não" tenham sido bons. A maior parte dos argumentos a favor do "sim" é que foram confrangedores.

A questão, se pensarmos bem, resume-se a duas vertentes: a prática e a simbólica. Se querem discutir o assunto a sério, concentrem-se nestes dois pontos.

Quanto ao aspecto prático, é bom ir logo ao osso da questão. Em termos de direito da propriedade e da família, que interessa que o casamento entre pessoas do mesmo sexo seja uma aberração do ponto de vista conceptual, se isso vai acabar com situações de injustiça e discriminação? Claro que é possível adoptar uma outra solução jurídica que não se chame casamento. Mas aqui entra a vertente simbólica, que tem estado muito arredada da discussão.

Deixem-me propor um par de analogias para se perceber melhor.

Na Matemática, sabemos que uma potência é uma representação simbólica que exprime o valor que se obtém multiplicando a base por si própria o número de vezes que surge em expoente. Sendo assim, é um absurdo escrevermos "cinco elevado a zero", pois zero não pode ser o número de vezes que a base multiplica por si própria. No entanto, "cinco elevado a zero" tem de existir por imperiosa necessidade da lógica matemática (ver explicação ao fundo).

Num plano mais próximo do casamento, toda a gente sabe que uma sociedade é um acordo entre duas ou mais pessoas. No entanto, porque é possível que um sócio detenha 99,9% do capital social ou até venha a adquirir, directa ou indirectamente, todas as quotas dos restantes sócios, o direito societário evoluiu no sentido de permitir a constituição de sociedades comerciais unipessoais, isto é, que apenas têm um sócio. As diferenças entre um comerciante singular e uma sociedade unipessoal não se resumem apenas a uma questão de direitos, mas incluem valores associados à imagem que se atribui no meio empresarial a cada uma destas formas jurídicas.

Nestes dois exemplos, a realidade matemática e a jurídica tiveram de se adaptar, combinando aspectos simbólicos, práticos e lógicos. É esta adaptação que tem de acontecer também no casamento.

Resumindo, as potências de base zero são um absurdo, mas têm de existir. As sociedades com uma só pessoa não são realmente uma sociedade, mas podem ser constituídas como tal. O casamento entre pessoas do mesmo sexo não é bem um casamento, mas é uma inevitabilidade. Por isso, altere-se a lei. E deixem-se de paneleirices.


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Por que tem de existir "cinco elevado a zero"?
Sendo 52 : 52 = 1 (um número a dividir por si próprio é igual a 1)
e 52 : 52 = 12 = 1 (propriedade da divisão de potências com o mesmo expoente)
então 52 : 52 = 50 = 1 (propriedade da divisão de potências com a mesma base).
Em conclusão, qualquer número elevado a zero é igual a 1.