segunda-feira, 7 de novembro de 2011

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Algumas ideias para se discutir o fim das reprovações

A Ministra da Educação anunciou há dias, embora de forma um pouco vaga, a intenção de acabar com as reprovações nas escolas portuguesas, uma vez que está provado que a retenção dos alunos só lhes traz consequências negativas. Esta notícia apanhou desprevenidos alguns políticos, os quais, instados a comentar a opinião da ministra, se viram na obrigação de dizer alguns disparates sobre educação.

Convém assentar algumas ideias básicas sobre o assunto. A primeira é que a retenção, em Portugal, é aplicada actualmente a três tipos de alunos: os que não querem saber, os que não podem saber e os que ainda não sabem. Embora só haja uma única forma de retenção (a que faz com que o aluno "não passe") e um único objectivo (fazer com que o aluno aprenda), ela adquire três naturezas distintas, consoante o tipo de alunos a quem é aplicada.

Para o aluno que não quer saber, a reprovação é punitiva. É o Inferno. Ai andaste a brincar, então toma lá qu'é praprenderes. E o aluno, como se sabe, aprende.

Para o aluno que ainda não sabe, a reprovação é benfeitora. É o Céu. Ao aluno é dada a permissão de voltar a ter professores e usar os recursos da escola para fazer de novo o trabalho já feito, para que o possa fazer ainda melhor. E o aluno, como se sabe, fica a saber.

Para o aluno que não pode saber, a reprovação é purificadora. É o Purgatório. Não só porque purga, limpa, tal como Pilatos fez às mãos, como permite evitar que o aluno atinja o Céu, que ele não merece, sem que se tenha de o enviar para o Inferno, o que também seria injusto. E o aluno, como se sabe... bem, quer dizer, eu não sei se o aluno fica melhor, mas com uma coisa tão sofisticada como esta, decerto melhorará.

Como se vê, a retenção escolar é um processo minuciosamente desenhado para, na sua inquestionável simplicidade, atingir diferentes e complexos desígnios. Antes de botar faladura sobre o tema, há que analisar bem se esses desígnios estão ou não a ser atingidos.

Uma segunda ideia fundamental é que deve evitar-se a todo o custo afirmar publicamente que a intenção da ministra é aumentar o facilitismo que abunda nas escolas portuguesas, baixando ainda mais a fasquia. Ou melhor, colocando a fasquia rente ao solo, de forma que até uma centopeia coxa a consiga ultrapassar. Esta ideia parece peregrina, mas já não colhe muito junto da população. Alunos, pais e encarregados de educação estão habituados a ir ver as pautas de exames e constatarem cenários de razia absoluta, principalmente em disciplinas como Matemática ou Física. É rara a família onde não tenha havido já reprovações, pois todos os anos mais de 30% dos alunos não obtêm, total ou parcialmente, a classificação mínima considerada positiva. Ora, como pode uma coisa destas acontecer numa escola facilitista e de baixa exigência? Qualquer coisa aqui não bate certo. Se calhar a escola não está a exigir pouco, está é a exigir mal. Se calhar, a escola não está a dar facilidades aos alunos, está é a evitar ajudá-los melhor, como seria o seu dever.

Terceira ideia basilar, convém ter algumas cautelas nas comparações com países onde não vigora o sistema de reprovações, como é o caso da Finlândia. A Finlândia ficou célebre por ter obtido os melhores resultados nos estudos PISA, ao passo que Portugal se quedou por uma modestíssima posição. Este é um dos argumentos mais recorrentes para mostrar que a escola portuguesa não está de boa saúde.

Façamos um pouco de ficção imaginativa: suponhamos que, enquanto as raparigas finlandesas permaneciam nas escolas daquele país nórdico, os rapazes vinham todos os anos a Portugal, onde, durante dois meses, frequentavam as nossas escolas. Voltemos à realidade: os relatórios PISA mostram que, de forma consistente, as raparigas finlandesas obtêm melhores resultados que os rapazes nas três áreas estudadas - língua, matemática e ciências. Cruzemos ficção e realidade: se os rapazes nórdicos viessem a Portugal, estava encontrada a explicação para o seu menor sucesso - a menor qualidade do nosso ensino. Mas, como isso não acontece, temos de concluir que alunos semelhantes, que frequentam o mesmo sistema de excelência como é o finlandês, têm resultados escolares diferentes apenas porque são de sexo diferente.

Este pequeno exemplo mostra três coisas: primeira, que as causas dos fenómenos no ensino também devem ser procuradas fora da escola e para além da forma como se encontra definido o sistema escolar; segunda, que há causas relevantes que têm a ver com aspectos aparentemente inofensivos; terceira, que muitos alunos portugueses, muito provavelmente, terão chumbado em circunstâncias onde houve alguma influência do facto de serem do sexo masculino.

sábado, 22 de maio de 2010

O mistério das tabelas de IRS

Todos os anos os governos publicam um despacho onde se definem as tabelas de retenção na fonte do IRS, aplicáveis aos rendimentos dos trabalhadores dependentes e dos pensionistas. Este ano, por força do atraso da aprovação do Orçamento de Estado, as tabelas foram publicadas apenas em 20 de Maio, através do Despacho n.º 8603-A/2010.

Devido às anunciadas medidas de austeridade e ao aumento de impostos, as pacíficas tabelas de IRS levantaram este ano uma estranha polémica na Assembleia da República, nos noticiários e entre os habituais comentadores políticos da nossa praça. O governo respondeu com um esclarecimento que ignora ostensivamente a letra da lei no que diz respeito à data da entrada em vigor (ver número 6 do Despacho).


Como toda a gente sabe, ou devia saber, não são as tabelas de retenção que originam a operação de liquidação do IRS. Elas apenas permitem uma cobrança antecipada, mas com valor provisório, do imposto. O verdadeiro IRS do ano de 2010 só será calculado em 2011, usando as regras que na altura estiverem em vigor e não o cálculo que resulta das tabelas agora publicadas. Vejamos, então:

Alguma vez no passado se levantou a questão do mês em que as tabelas devem começar a ser aplicadas aos salários? Não. Porquê, então, a questão é levantada este ano? Mistério!

Não é verdade que o real IRS que nos sairá do bolso é o que resultar da lei que ainda não foi aprovada e não o que é calculado com as tabelas de retenção? Claro que sim. Porquê, então, a indignação devido à "tributação" ter sido decidida por mero despacho publicado antes da discussão da alteração da lei? Mistério!


Não é indiferente, em termos de liquidação final de IRS, que as tabelas sejam aplicadas já em Maio, ou só a partir de Junho, ou de Julho ou até de Setembro? Claro que sim. Porquê, então, a inflamada questão sobre a data de entrada em vigor do despacho e este anedótico esclarecimento do governo? Mistério!

Este episódio é um bom exemplo da ignorância, da falta de rigor ou da falta de seriedade com que políticos, jornalistas e outros espécimes afins nos governam, nos informam e criam opinião pública neste país. É que, se tanta asneira se diz numa coisa tão simples e tão evidente, dá para imaginar os disparates que se dizem e se fazem em relação a coisas bem mais complicadas...

sábado, 1 de maio de 2010

Filetes de salmão com lima

O salmão ganhou muitos adeptos devidos às suas propriedades benéficas para a saúde. Ao que parece, o salmão é rico em antioxidantes, ómega 3 e outras substâncias que previnem as doenças cardiovasculares e retardam o envelhecimento.

Muita gente não come salmão devido ao sabor um pouco enjoativo que este peixe tem. No entanto, há várias maneiras de o cozinhar de forma que perca muito desse excesso de sabor. Esta receita pode também ser feita com filetes de outras variedades de peixe.

Temperar filetes de salmão com sal, pimenta, raspa de lima e sumo de lima. Deixar marinar enquanto se preparam os restantes ingredientes.
Picar finamente picles de malaguetas verdes (jalapeños) ou pepinos (cornichons).
Picar coentros frescos.
Refogar cebola e alho picados em azeite.
Numa assadeira, colocar no fundo um pouco do refogado, dos picles e dos coentros. Juntar os filetes de salmão, uns ao lado dos outros. Juntar o líquido da marinada. Colocar por cima o resto dos ingredientes. Assar no forno a 180º durante cerca de 20 minutos.
Acompanhar com legumes cozidos.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

No meu tempo é que era bom

Toda a gente sabe que no meu tempo é que era bom. O meu tempo, como também se sabe, é o tempo que já lá vai. As coisas que nesse tempo eram boas, hoje são más. E as coisas que nesse tempo eram más, hoje estão péssimas.

Toda a gente sabe que a escola no meu tempo era melhor do que hoje. A escola nunca esteve tão má como está agora. A miudagem conclui o ensino secundário analfabeta e ignorante. Nenhum aluno hoje lê livros porque a leitura é uma tarefa hercúlea, extenuante e inútil. Os alunos de hoje nem sequer sabem ler - apenas conseguem soletrar. E são incapazes de interpretar correctamente um texto porque desconhecem termos elementares como "opositor" e "sintético". Ah! No meu tempo!...

Com 10 anos já eu tinha devorado pilhas de Camilo Castelo Branco e de literatura de cordel francesa que a minha avó tinha numa estante. Lembro-me da pena que me fazia, em certas noites, ter de deixar o livro para dormir, empolgado que estava na leitura de tão fascinantes peripécias. De manhã, assim que acordava, a primeira coisa que fazia era voltar às fantásticas personagens que viviam nos livros. De Xavier de Montépin, por exemplo, recordo a insuportável perversidade da Alma Negra ou a redentora vingança, ao fim de vinte anos, de Joana Fortier, a padeira injustamente condenada por um crime que não cometeu. Aos 10 anos, só de Camilo, eu já tinha lido, entre outros títulos, Onde está a felicidade, Um homem de brios, Cenas da Foz, O esqueleto, A brasileira de Prazins, Carlota Ângela, Amor de Perdição, Amor de Salvação, Os brilhantes do brasileiro, Estrelas funestas, O bem e o mal, A bruxa do Monte Córdova, A queda de um anjo...

Apesar de toda esta leitura, apesar deste treino, um dia, já com 17 anos, tive uma dificuldade enorme em ler uma obra obrigatória na disciplina de Português. As personagens eram chatas, a história não cativava, o estilo do autor era, por vezes, irritantemente impenetrável, com uma grande densidade de palavras de significado obscuro. Para me ajudar na leitura, iniciei então, com esse livro, um hábito que mantive durante alguns anos, que era sublinhar os termos desconhecidos e, depois de consultar o dicionário, anotar em rodapé o respectivo significado.

Esta prática permite-me agora verificar que eu, aos 17 anos, apesar de ter sido um leitor incessante, desconhecia termos que hoje consideraria triviais e acessíveis a qualquer jovem da mesma idade. Isto exemplifica, de forma muito concreta, a diferença que há entre o passado e uma certa ideia que temos dele. Não fossem as anotações feitas no livro e eu hoje consideraria impossível que desconhecesse, nessa altura, termos tão correntes. Mas tais anotações provam o contrário.

Elaborei uma lista que me parece significativa de 25 destas palavras. A obra era Viagens na minha terra de Almeida Garrett.

apático
asceta
austero
castrar
cepticismo
decrépito
déspota
enguiço
erudito
execrável
fêvera
índole
lascivo
lorpa
miríade
plácida
promíscuo
puberdade
pugnar
pulha
querela
reminiscência
supérfluo
utopia
zurrapa

Toda a gente sabe que no nosso tempo é que era bom. Saudosismo e memória de requeijão dão nisto - uma incapacidade de avaliar correctamente as diferenças entre o passado e o presente. Eis uma coisa que a boa escola de antigamente não nos ensinou.

sábado, 24 de abril de 2010

Aviso aos passageiros

Devido à nuvem de cinzas provocada pelo grelhador da Dona Ricardina, mai-los seus pianos de porco preto na brasa, a Tasca do Silva tem estado encerrada ao tráfego.

Para agravar o cenário macroeconómico do bairro, correm rumores que estará prestes a entrar em ebulição um panelão de cozido à portuguesa, que a mãe de Parménides Juvenal prepara na lareira lá de casa para o filho levar numa excursão ao Oceanário, o que, a acontecer (a ebulição, não a excursão), motivará maiores nuvens sobre as cabeças do bairro, naquilo que os cientistas e ratos de biblioteca costumam sabiamente designar por SNC-Sistema de Nuvens Carregadas.

Contamos retomar o contacto com a Tasca em breve ou, pelo menos, quando alguém bufar o suficiente para afastar as cinzas.

sábado, 20 de março de 2010

Uma melodia eterna

O compositor alemão Hans Leo Hassler (1564-1612) escreveu um dia uma inspirada melodia, que viria depois a ser utilizada por vários compositores. Esta melodia deve talvez a sua celebridade a Johann Sebastian Bach (1685-1750), que a incluiu na Paixão Segundo S. Mateus, BWV 244.

Na música pop houve várias abordagens, como é o caso de Peter, Paul and Mary (Because all men are brothers - the whole wide world around) e Paul Simon, que se inspirou no coral de Bach para compor American Tune.

É muito interessante ver a melodia "vestida" com roupagens de várias épocas e estilos.

Aqui temos a melodia original de Hassler, Mein Gmüth ist mir verwirret:



Eis a pauta com o coral de Bach...


... e o mesmo coral da BWV 244:



A versão de Peter, Paul and Mary:



E a canção de Paul Simon, aqui numa versão de Darrell Scott:

domingo, 7 de março de 2010

Ela não entenderia…

O som começa a ouvir-se distante e rapidamente se torna próximo e ensurdecedor, como se algo caísse a pique na minha direcção. Não vejo, mas imagino pelo som, aparelhos que voam, que se deixam cair no espaço aéreo, e que na última hora retomam o voo, acabando por não embater no local onde me encontro.

Vou despertando. O som que me incomodava é-me, afinal, familiar. Os carros que aceleram na avenida, que se começam a ouvir ao longe, aproveitando o vazio da estrada na noite, passam por segundos pelo local onde se encontra a casa onde durmo e desaparecem à mesma velocidade como vieram.

O sono está quebrado, agora. Fico a apreciar o efeito da iluminação provocada pelos faróis dos carros que passam. As velhas portadas de madeira nas janelas não encaixam bem, permitindo bastantes locais de penetração da luz, que percorre os tectos e paredes a cada manobra de algum carro a atravessar o cruzamento, para o qual o quarto da casa onde me encontro faz esquina.

Tenho os olhos bem abertos, tentando ver entre o escuro da noite, as sombras de luzes que se formam e a ideia que tenho daquela divisão que me é tão familiar, mas que me parece agora tão desconhecida. A cada carro que passa, a madeira das portadas da janela torna-se maleável, como se transformasse numa matéria plástica e depois numa matéria sem corpo. Jactos de cor varrem o escuro em movimentos rápidos que me hipnotizam. Tudo no quarto se vai desmaterializando, se transformando, num jogo de luz e movimentos estonteantes, como se estivesse a entrar noutra dimensão, sem controlo possível. Por todo o lado começam a surgir olhares e risos silenciosos que me perturbam. Eu sei que isso não pode ser real. No entanto, é tudo tão nítido e tão autêntico…

Manhã. Acordo com o quarto iluminado pela luz do dia, ouvindo conversas e passos de pessoas na rua, e os carros na estrada, agora soando-me mais distantes. Olho a janela e apresso-me a confirmar como as portadas continuam firmes. Confunde-me o quão tudo foi tão real e intenso, e agora esteja tudo tão igual a sempre. Desilude-me pensar que tudo o que vivi tão fortemente desapareceu…

Ao sair do quarto encontro a minha mãe que me pergunta como correu a noite. – Bem! Respondi. Não pretendo contar-lhe a aventura dessa noite. Decerto não entenderia, decerto faria rapidamente com que tudo fosse mero fruto da minha imaginação…

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

As novas facturas da EDP

À
EDP Serviço Universal, SA

Exmos. Senhores

Em resposta à vossa carta de 23 do corrente, junto envio um cheque no valor de 78,19 € para pagamento da factura n.º 20376306103.

Aproveito para pedir desculpa pela falta de pagamento dentro do prazo, mas não tinha percebido que aquilo que eu julgava ser uma folha publicitária e informativa da EDP era uma factura para eu pagar. De facto, na referida folha podem ler-se informações como:

a) "Poupe a 100%! Os equipamentos em stand-by continuam a consumir energia. Desligue sempre (...)"

b) "Seja mais eficiente! Antes de comprar um novo equipamento verifique a etiqueta energética e opte pelo (...)"

c) "Poupe energia! Substitua as lâmpadas incandescentes por lâmpadas economizadoras. Iluminam o mesmo mas poupam 80% da energia eléctrica consumida e duram até 10 vezes mais."

d) "Informamos, nos termos do Aviso do Banco de Portugal, n.º 10/2005, publicado no DR I Série B N.º 120, de 24 de Junho de 2005, relativo ao (...)"

e) "Comunique a sua leitura através de www.edpsu.pt (...)"

f) "Emissão de CO2 associado ao consumo (...)"

g) "O valor indicado inclui os custos relativos ao uso das redes e os custos de interesse económico geral que decorrem de medidas de política energética (...)"

h) "Compensamos o impacte ambiental produzido (...)"

i) "Use a máquina de lavar com a carga máxima (...)"

j) "Evite abrir desnecessariamente a porta do frigorífico e tente fechá-la (...)"

k) "No Inverno, aproveite a radiação solar para (...)"

l) "A electricidade facturada foi produzida a partir das seguintes fontes de energia - Hídrica:15,4%; Nuclear: 5,9% (...)"

m) "Saiba mais sobre a produção da sua electricidade, designadamente sobre as fontes de energia utilizadas, as emissões atmosféricas (...)"

n) Etc., etc., incluindo um gráfico circular e um código de barras. Na primeira página, em tipo de letra muito destacado vê-se também a frase "Nova factura - muito mais simples", junto ao desenho de um labirinto.

Vendo melhor, no verso da folha e no meio desta confusão toda de informação, consegui depois encontrar os dados do consumo facturado e o preço que devia ser pago.

E aí fez-se luz sobre o porquê da tal imagem do labirinto. Compreendo agora a intenção lúdica deste novo aspecto das vossas facturas - o cidadão cliente pode agora divertir-se a tentar encontrar o valor da factura, atenuando assim o impacto que sofre quando vê o exagerado preço de energia que tem de pagar. Acho uma excelente ideia.

Com os meus cumprimentos

Se a minha mãe fosse lésbica...

Os publicitários são uns exagerados, já se sabe. Mas esse exagero não desculpa certos disparates que, por uma questão de mera lógica e de bom-senso, provocam no público a reacção exactamente oposta à que se pretende obter. Os exemplos abundam.

Por outro lado, se a homofobia é uma coisa insuportável, começam a ser irritantes algumas manifestações que pretendem promover a homossexualidade, deixando esta de ser uma mera e neutra orientação sexual. Depois de se decretar o mês de Junho como o mês do gay pride, não estará na altura de estender o ridículo e o absurdo oficializando Agosto como o mês do marialva heterossexual macho latino?

Juntos, publicitários exagerados e homossexuais ansiosos, deu asneira. Uma campanha de propaganda homossexual vem perguntar, com o maior despudor, se mudava alguma coisa se a minha mãe fosse lésbica. Como a imagem junta uma criança e uma mulher, imagino que a questão é colocada à malta mais nova. E eu julgo que a esta pergunta qualquer criança da escola primária sabe responder. Apesar de já não ser criança, eu respondo também. Se a minha mãe fosse lésbica, eu não existia. Para mim, pessoalmente, fazia uma diferença do caraças!

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Frango com café, coco, curgetes e caju

E agora, algo verdadeiramente diferente do vulgar bitoque com ovo a cavalo. Este prato, além de ter um aspecto muito sugestivo, apresenta vários sabores que combinam na perfeição, não perdendo a sua individualidade - café, gengibre, coco, curgetes e frutos secos.

Frango

Refogar em azeite uma cebola e gengibre cortado finamente.
Juntar peitos de frango cortados em pequenos cubos e fritar em lume forte durante 10 minutos.
Temperar com sumo de limão, sal e pimenta de Caiena.
Adicionar café (para 3 ou 4 pessoas, dois cafés expresso ou equivalente) e leite de coco.
Estufar mais 15 minutos ou até que o frango fique cozido.

Curgetes fritas

Cortar curgetes em pedaços (por exemplo, como descrito aqui ou em tiras um pouco maiores) e fritar num pouco de azeite durante 10 minutos, mexendo regularmente.
Retirar do lume e temperar com sal e pimenta.
Polvilhar com salsa e com cajus picados grosseiramente.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Introdução à rapidinha

Ora aqui estão duas palavras que poderão induzir o espírito sexualmente avassalador de muitos jovens dos dias de hoje a poisarem erradamente neste post, quais mosquitos à procura de sangue fácil, fazendo aumentar exponencialmente as visitas a este estabelecimento. Chama-se a isto, meus amigos, de marketing foleiro, vulgo publicidade enganosa.

Convém portanto desenganar os petizes, pois aqui o que se discute é deveras importante, pelo menos para um quarentão, cujo prazer vai muito para além duma queca cronometrada pelo intervalo de tempo observado entre a passagem de pessoas num vão de escadas qualquer.

Posso, no entanto, introduzir aqui um novo elemento, o qual de alguma forma pode influenciar a permanência dos ditos putos, se bem que por apenas mais alguns segundos – o buraco!

Pura ilusão portanto, porque afinal do que quero falar é do furo, que não do anatómico, mas apenas e só do televisivo.

Afastados os mosquitos, o que hoje me traz por cá, pasmem-se, é a REVOLTA!

Quem é que ainda não se sentiu possuído por uma vontade enorme de meter as mãos pelo ecrã da televisão adentro, agarrar o pivot pelos colarinhos e acertar-lhe com uma valente cabeçada nos cornos? Fodê-lo, basicamente (olha, voltaram os mosquitos)!?

Pois foi assim que eu me senti um dia destes, quando tenho o azar de estar com a televisão ligada, para cúmulo enquanto jantava, e oiço que o Abel Xavier se tinha convertido ao Islamismo.


Aqui está a diferença de mentalidades – enquanto que para um qualquer director de programas aquilo era um potencial furo jornalístico, para mim não passou de alguém que invadiu a minha privacidade, ousando introduzir-me dois dedos na boca e provocando em mim um forte desejo de vomitar.

Não se trata aqui de criticar as opções religiosas de cada um. Calma aí Sr. Bin Laden, deixe lá estar os seus jagunços ocupados nas guerras com os Americanos, pode ser? Do que se trata, é que, se já sentia a minha integridade mental fornicada (oops) pela visão ensombrara de um preto com barba amarela e cabelo espetado de cor condizente, agora necessito urgentemente de uma camisa de forças, ou não tivesse chegado a excentricidade ao seu ponto máximo, que foi o de se trocar o nome que os nossos Paizinhos nos deram com tanto amor e carinho. Conhecem aquela anedota estúpida e mais do que gasta de um individuo que vai à Conservatória trocar de nome, pois chamava-se António Merda e preferia chamar-se Manuel Merda?… Quando vemos um individuo a querer chamar-se de Faisal, em vez de Abel, percebemos que afinal o humor continua de rastos.

É por essas e por outras, que me desculpe o Sr. Bin Laden (e vejam como subrepticiamente aumentei ainda mais a possibilidade deste blogue vir a ser visitado por pessoas de todo o mundo… e arredores, isto para quem acredita em UFO), que eu ainda prefiro a cultura americana, ou não tivessem eles por lá um boneco, de seu nome Bart Simpson, o qual consegue ser bem mais inteligente que qualquer outro boneco de carne e osso!



domingo, 10 de janeiro de 2010

Frédéric Mesnier - Medieval Song

Frédéric Mesnier é um cidadão francês que toca guitarra e compõe música para este instrumento. No seu site, este artista, que é praticamente autodidacta e não é músico profissional, divulga livremente a sua música sob as mais diversas formas: pautas, tablaturas, ficheiros mp3, vídeos, códigos para incorporação em páginas da Internet, aplicações para partilha nas redes sociais...

De entre as suas composições, encontrei uma muito bonita de sabor medieval que é um sucesso no Youtube, nesta altura com mais de meio milhão de visualizações. Para distinguir entre a música ouvida e a música "vista", vale a pena fazer um exercício de dupla audição, primeiro sem imagem e depois em vídeo com o próprio compositor a tocar.

Áudio

<a href="http://fredericmesnier.bandcamp.com/track/medieval-song">Medieval song by Frederic Mesnier</a>

Vídeo

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

… Énda épi niú iar!

Grande PJ, grande PJ, quem sou eu à tua beira? … Um estúpido passarinho, que se esborracha numa das turbinas do teu cérebro supersónico? … Um camelo sem bossas? … Uma varejeira sem asas? … Um homo neanderthalensis, mas sem a parte do sapiens? Obrigado pela tua prestação ao longo deste ano e que tenhas um grande 2010 … com muita coisa quentinha para te “aconchegar”, que não propriamente e apenas collants e leite.

Obrigado também aos restantes co-tasqueiros, pois mais não seja ajudaram a colorir os dias de muitas pessoas.

À Frente. O que me trás por cá, é esta questão de todos desejarmos um novo ano cheio de saúde, paz, amor e prosperidade, esquecendo-nos muitas das vezes de olhar para trás e ver/aprender com o que se passou.

Pois o que se passou não foi propriamente um “annus horribilis”, mas uma coisa ali por perto, a que eu atrevo-me a chamar de “annus rascus”, a saber:

  • Susan Boyle, 48 anos, até então uma ilustre desconhecida, celebriza-se num concurso de música lá nas terras de sua majestade, mas acaba por ficar à rasca na final, a qual perde para um desses grupos de gajos quaisquer, cuja boa figura só serve para alimentar certas indústrias rafeiras;

  • Em contrapartida, e com apenas mais duas primaveras, finou-se essa figura mundial da musica pop, de seu nome Michael Jackson (Miguel, o filho de Jack), tendo-se apurado na autópsia que o seu corpinho danone já estaria à rasca com tanta absorção de medicamentos;

  • Por falar em brancos, nos EUA chega à presidência um afro-americano, o qual ainda arrebata, como brinde-surpresa a abrir mais daqui a uns tempos, um belo dum prémio Nobel da Paz. Escusado será dizer que essas eleições deixaram muita gente à rasca;

  • Entretanto, e para que a tremedeira não desse lugar a um cataclismo, o Xôr Presidente lá fez um arranjinho em Copenhaga com mais dois ou três artistas. Pois sim senhor – “As emissões de dióxido de carbono fazem mal ao planeta, mas se este não estiver bem que se ponha, até porque quem manda aqui somos nós e não se fala mais nisso, ai a porra já, vamos mas é acabar isto, que eu estou à rasquinha para ir ao WC!”;

  • Porra, porra, foi aquela história do BPN e BPP, principalmente para certos depositantes, os quais, segundo os próprios coitadinhos, estarão à rasca para sobreviver sequer;

  • Ao contrário daqueles, houve um individuo - aquele que ganha dinheiro a dar pontapés numa bola e que ao mesmo tempo ainda consegue fazer outra habilidade, que é a de falar com uma batata na boca - o qual embolsou a módica quantia de 94 milhões de euros, imagine-se, só porque trocou de camisola! Como se sentirão no meio disto tudo aquelas Senhoras de etnia cigana, as quais vêem as clientes mudar de camisola e que no fim acabam por nada comprar? À rasca, pois claro;

  • O que eu propunha às ciganitas (com todo o respeito), era que trocassem de negócio e se dedicassem à venda de sucata. Isso sim, isso é que está a dar. Bem sei que, caso o negócio não seja bem feito, há sempre a possibilidade de perdermos a galinha dos ovos de ouro e ficarmos novamente à rasca, restando-nos pegar numa vara e ir para as feiras pedir, de preferência com cara de vítima;

  • Quem nunca precisará de pedir, dinheiro, claro está, é o escritor hispano-português José Saramago, o qual, mesmo à rasquinha presume-se, ainda conseguiu escrever “Caim” (coin, em inglês), livro em que basicamente desanca na única religião que ele ainda teme ser mais forte que a por si (mal)criada;

  • Malcriada, segundo as más-línguas, seria a D.ª Manuela Moura Guedes para com os políticos e outros que tais, a qual viu o seu jornal de sexta suspenso e assim também se viu forçada a entrar de baixa, isto porque, segundo as mesmas más-línguas, andaria à rasca de dinheiro e, já que não se pode lixar o Estado de outra forma, pelo menos tira-se-lhe umas patacas;

  • Pelo meio tivemos eleições internas e foi o que se viu – Numas ou noutras, todos eles andaram à rasca. Só não viu quem é cego;

  • Quem nunca mais tornará a ver (o que, a continuar assim o estado das coisas, nem faz grande diferença), são aqueles seis desgraçados que tiveram o azar de ir parar ao Santa Maria. Já não lhes bastava o martírio de irem para os centros de saúde de madrugada, isto para terem uma vaga à rasca? Sinceramente!;

  • Bem sei que nem tudo são tristezas e ainda bem que o Astérix e o Obélix continuam a brindar-nos com as mil e uma maneiras de afiambrar romanos, isto há 50 anos. Não se tratasse de duas figuras míticas e o Berlusconi andaria à rasca, pois já se sabe que levar com um menir nos cornos deve ser bem mais doloroso que apanhar com uma miniatura de um edifício qualquer nas beiças;

  • À rasca, à rasca, andamos nós durante o ano com esta história da gripe A, efeméride que transformou um simples espirro num acto proibido de se efectuar em público, o que não foi mau para todos, nomeadamente os que sofrem de incontinência “flatal”, coisa nada admissível (e assumida) em público desde há muitos anos, muito menos se tal situação ocorresse num elevador;

  • Claro que, como em todos os posts que fui publicando ao longo do ano, também este haveria de acabar a cheirar mal e por isso volto ao FUTEBOL. Ora, não é que a nossa selecção lá se apurou para o mundial à rasca!? Eu sei, já não podemos com tanto pontapé na bola, mas estejam descansados, pois ou é de mim, ou tenho o pressentimento (um feeling, portanto) que depressa eles vêm de malas aviadas.

Muito mais haveria para relatar, mas fico-me por aqui (aleluia), não sem antes dizer-te, ó 2009, que até gostava de te deixar um “porreiro pá”. No entanto, e como te portaste mal, lamento só poder oferecer-te isto:

Bom ano para todos!

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

ui uíxu a mérri crishmas!


Olá, o meu nome é Parménides Juvenal e moro aqui no bairro.
Bem sei que não devia andar na rua a esta hora, mas vim aqui à tasca num instante comprar aguardente para a minha mãe, que está a fazer uns sonhos de Natal, por isso não posso demorar porque senão ela fica preocupada.
Parecendo que não, se eu demorar muito, a massa leveda sem aguardente e depois os sonhos já não sabem ao mesmo.

Só tenho boas recordações do Natal. Aliás, um dos momentos altos da minha vida foi quando fui escolhido para a peça de Natal da escola, e calhou-me logo o importante papel duma pedra, na qual se sentava o pai do menino Jesus. Por acaso tive sorte, porque esse papel estava destinado a um banco de madeira, mas que à última hora não pôde participar por ter partido uma das pernas.

Noutro Natal, recebi uns dos melhores elogios que ouvi até hoje. Chamava-se Susana, tinha sardas e eu estava completamente apaixonado pela forma carinhosa como ela gritava "Sai da frente, inútil", enquanto subíamos as escadas para a sala de aulas. Recordo-me como se fosse há 20 anos, quando ela olhou para mim, eu na aula de ginástica, com colants verdes (eram mais quentinhos e o pavilhão era um bocado frio) e diz-me “Para pinheiro de Natal só te faltam as bolas”...
Senti-me levitar de paixão como uma bola de sabão!
Isto pode parecer um pensamento muito erudito mas reconheço que tenho sido influenciado pelos livros do Lobo Antunes que leio (mas escondidos entre as páginas da Playboy, não vá o meu pai apanhar-me a ler coisas que fazem mal aos olhos).

Bom, mas fico por aqui, espero não ter incomodado, vou andando, desejo um feliz Natal a todos os senhores e senhoras e também àqueles que, segundo o meu pai diz, pegam de empurrão.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Um sonoro silêncio

O compositor austríaco Anton Webern pertenceu ao conjunto de autores que, no início do século XX, encaminhou a música na direcção da atonalidade, isto é, a ausência de harmonia baseada nos acordes tradicionais.

Alex Ross, no seu livro O Resto é Ruído, descreve de forma muito interessante um trecho da obra Seis Peças, opus 6 de Webern, composta em 1909-10. Aqui fica a descrição e um vídeo, no qual a passagem a que Ross se refere tem início aos 3:50 e demora cerca de 4 minutos.

A meio da sequência há uma procissão fúnebre que começa com uma agourenta tranquilidade, com um ressoar de tambores, de gongos e de sinos. Diversos grupos de instrumentos, entre os quais predominam os trombones, gemem acordes de cariz inerte e contido. Um clarinete toca uma melodia aguda, lamuriante e envolvente, em mi bemol. Uma flauta alto responde com timbres baixos e roucos. Uma trompa e um trompete produzem em surdina outros fragmentos líricos e acordes subterrâneos. É então que os trombones soltam um grito e os sopros e metais os seguem. A peça termina com uma sequência esmagadora de acordes de nove e dez notas, após as quais a percussão inicia o seu crescendo que culmina com um rugido que liquida qualquer tom. E assim começou a idade do ruído. (...)

As obras de Webern estão suspensas num limbo entre o ruído da vida e o silêncio da morte. A facilidade com que um se funde no outro significa que das suas obras emana uma percepção filosófica clara e profunda. O crescendo na marcha fúnebre da Opus 6 está entre os fenómenos musicais de maior volume sonoro da história, mas ainda mais sonoro é o silêncio que se lhe segue e que fere os ouvidos como um trovão.



Alex Ross
O Resto é Ruído - À Escuta do Século XX
Casa das Letras, 2009

Anton Webern
(1883-1945)
Seis Peças, opus 6
Orquesta Joven de la Sinfonica de Galicia (OJSG)
David Ethève (maestro)