domingo, 13 de dezembro de 2009

Carbonara de curgetes

Tenho sérias dúvidas sobre qual a melhor grafia para esta variedade de abóbora de nome afrancesado. Corgete, curgete ou courgete? Opto pela proposta do dicionário da Priberam. Em contrapartida, não tenho dúvida alguma sobre a enorme qualidade gastronómica que este fruto imprime a algumas receitas.

É o caso desta carbonara (hum... isto parece ser italiano) que adaptei depois de a pescar num programa de televisão de Jamie Oliver (este é inglês - eis a Tasca Global!). Simples, fácil, rápida e deliciosa.


Ingredientes (para 4 pessoas)

2 curgetes
150 g de bacon
300 g de massa tipo penne
2 ovos
1 pacote de natas (200 ml)
queijo parmesão ralado
alho
tomilho
azeite
sal
pimenta


Receita

Lavar e cortar as curgetes ao meio e depois em quartos. Retirar a parte central que tem as sementes. Cortar depois cada quarto de curgete em tiras diagonais (de tamanho semelhante ao da massa penne).

Num recipiente, juntar duas gemas de ovo, as natas e o queijo parmesão ralado (cerca de 3 colheres de sopa).

Cozer a massa em água temperada com sal. Escorrer e reservar cerca de meio decilitro da água da cozedura.

Num tacho largo ou numa frigideira alta, fritar o bacon numa colher de azeite. Acrescentar o alho picado. Juntar as tiras de curgete. Temperar com tomilho e pimenta. Deixar as curgetes fritar 5 a 10 minutos, de forma a ficarem cozidas mas um pouco rijas.

Juntar a massa e mexer, envolvendo bem todos os ingredientes. Retirar do fogão e juntar a água da cozedura da massa e a mistura dos ovos, natas e queijo. Mexer bem até a mistura ficar cremosa.


sábado, 12 de dezembro de 2009

Claimeitegueite

No momento em que decorre a Conferência sobre Alterações Climáticas em Copenhaga, é altura para lembrar o caso Climategate. Em Novembro passado, pessoas desconhecidas acederam a um computador do CRU (Climatic Reserch Unit), em Norwich, Inglaterra, tendo obtido e divulgado e-mails confidenciais que mostram que alguns "cientistas" têm deturpado os dados tornados públicos sobre o aquecimento global, exagerando o fenómeno.

Este caso junta-se assim aos argumentos que vão no sentido de que o aquecimento global é uma grande treta ou, a haver algum aquecimento, ele não deriva da actividade poluente dos seres humanos.

Já sabemos que há coisas que não são o que são. Por isso, devemos cultivar o cepticismo. Ser céptico permite ver as coisas para além daquilo que elas parecem ser. Pelo menos algumas. É por sermos cépticos que "o mundo pula e avança". Mas fica uma sempiterna dúvida. Onde pode parar o cepticismo? Neste caso concreto, devemos acreditar que os e-mails comprometedores e a fraude científica existem mesmo?

A controvérsia está, mais do que nunca, acesa. O que pode muito bem ser uma das causas do aquecimento global.

A dralien day

Para mim, os melhores jogos de computador são aqueles em que o jogador não tem que usar a destreza motora, mas, em vez disso, tem de ficar a olhar para o ecrã a tentar resolver situações enigmáticas, fazendo uso de capacidades como o sentido de observação, a intuição, a inteligência, a imaginação, o sentido de humor e o nonsense.

A Dralien Day é uma deliciosa miniatura em palataforma flash jogável na Internet. Em apenas meia dúzia de níveis muito simples, combina o melhor do género com uma sessão de um inofensivo shoot'em up.

Para não aborrecer muito os mais impacientes, até tem ajuda com a solução de cada nível. Mas não a usem. Resolver o enigma sem ajuda é muito mais emocionante.


domingo, 22 de novembro de 2009

24 - Operação Moelas (X) finalmente...o fim.



“Cozem-se as moelas sem sal durante 30 minutos. Depois de cozidas cortam-se aos poucos e levam-se num tacho ao lume juntamente com a cebola, o alho, o azeite e as folhas de loureiro. Quando a cebola e o alho começarem a alourar, juntar a cerveja e deixar ferver. Em seguida deita-se o molho de tomate, na quantidade que preferir (depende da maneira como quiser o sabor do molho das moelas, a saber a tomate ou a saber mais a cerveja). Junta-se o vinho branco ou o whisky, cerca de 2 ou três colheres de sopa e o sal q.b. e deixa-se apurar o molho. Juntar ao molho 2 colheres de sopa de farinha maisena, dissolvidas em água, de modo a este engrossar”...

* * *

Podendo parecer repetitivo, ou falta de imaginação do autor, a verdade é que pela segunda vez naquele dia, dir-se-ía que o mundo havia parado a sua rotação e a vida interrompido o seu curso, à excepção dos rápidos movimentos de Jack Bauer que provavam a razão de Einstein dizer que espaço e tempo eram relativos. No tempo em que Cátia Vanessa levou a ler a receita (além dos balanços da viatura, não podemos esquecer a tremura das suas mãos perante a responsabilidade), Bauer conduziu a carrinha pelo parque de campismo adentro, conseguindo despistar os seus perseguidores e, ao mesmo tempo, deitar a mão a um fogão Camping gás, uma garrafa de cerveja, outra de vinho branco, aos temperos necessários às moelas e a um soutien de uma rapariga gorda que tomava banho atrás de uma roulotte.

Todo esse material, à excepção do soutien, foi utilizado por Cátia Vanessa, coadjuvada por Parménides Juvenal, que fizeram da traseira da carrinha do talho um laboratório de criação artística, pois de arte se trata quando se fala das moelas à Silva, pitéu gastronómico referenciado em várias publicações da especialidade, nomeadamente, a Gazeta Gastronómica de Curral de Moinas e o suplemento culinário da Dica da Semana.

Bauer guinou à esquerda, entrando na Rua dos Almeidas, a qual penetrava no coração do bairro e ía desembocar directamente em frente à Tasca do Silva. Consultou o seu cronómetro de pulso, uma bela peça de relojoaria de design italiano, precisão suíça e comprado na loja do sr Ping Xixi. Faltavam poucos minutos para o meio dia. A tensão crescia. Cátia Vanessa apurava o tempero das moelas. Os segundos iam correndo. Pelas costas do Silva corriam gotas de suor frio. Quase se podia ouvir o bater dos corações. Tensão no ar. Uma multidão aguardava que fosse servido o petisco após o discurso de Aníbal Silva. Mais um minuto passara e parecia cada vez mais perto o primeiro incumprimento eleitoral do candidato, que dissera claramente à imprensa, que ao meio dia estaria servido o ex-líbris da tasca e do bairro. E foi nesse momento que...

...a mãe de Parménides atravessou a rua, procurando pelo filho que não via há quase 24 horas e pela garrafa de tinto que, infelizmente, com ele desaparecera.
Uma fracção de segundo. Foi tudo quanto Bauer teve de antecedência para torcer violentamente o volante, levando a carrinha frigorífica a equilibrar-se momentâneamente em duas rodas antes de se desviar de encontro a um poste de iluminação, por sinal já com a lâmpada fundida. A força centrífuga criada pela curva, adicionada à energia cinética libertada pelo choque, numa proporção que este autor não consegue descrever, mas que qualquer físico poderá calcular com precisão, fez abrir as portas traseiras do veículo, projectando Parménides pelo ar como se de um frisbee se tratasse.

E foi assim, que Parménides Juvenal, num voo elíptico, passou no espaço aéreo por cima de sua mãe, agarrado a um tacho de deliciosas moelas prontas a comer, entrou pela porta da tasca, aterrando precisamente por baixo da comprida mesa de cerimónia, junto aos pés do Silva, o qual tratou de pegar no tacho e o colocar no centro da mesa, marcavam os relógios 11 horas, 59 minutos e 59 segundos.
- Aqui tem o que pretende – disse o dono da Tasca para Aníbal Silva.
O candidato franziu o sobrolho,na dúvida se ele se referia às moelas ou ao tacho...em sentido figurado.



Nessa noite, Parménides Juvenal pôde finalmente gozar o conforto do seu lar, sentado aos pés do maple onde sua mãe fazia renda, enquanto ambos viam a novela das 10, embora o jovem sentisse já os seus olhitos sucumbindo ao sono, quer por efeitos do cansaço quer por resultado do leite morninho que bebericava.
- Ai, meu filho, não imaginas as ralações que passei por tua causa...tentei ligar-te para o telemóvel e não respondeste...
- Ó mãe, desculpa, devo tê-lo perdido nalgum lado!
- Vou fazer-te uma bolsinha em malha para trazeres o telefone sempre contigo à cintura!
- Não sei se é boa ideia trazer o telemóvel à cintura, mãe, preocupa-me o que dizem por aí sobre as radiações...
- E tens medo do quê, filho?! De ficar estéril? O teu pai também o era e não foi por isso que tu deixaste de nascer...

sábado, 31 de outubro de 2009

Realidades

I.
Brinco só no meu quarto, alheia aos brinquedos, embrenhada na imaginação, que me leva a um mundo que me parece tão real, e tão mais interessante que este onde vivo. A minha mãe vem ter comigo e diz-me que vão ao café, ela e o meu pai. Parece-me indiferente esta indicação, mas assim que oiço o fechar da porta uma sensação de satisfação invade-me. Só, nesta casa com tantos recantos e objectos escondidos que nunca vi. Dirijo-me então aos locais da casa geralmente “proibidos” a brincadeiras, e exploro, cada gaveta, cada armário, por baixo da cama, em cima da cómoda, tudo o que me é normalmente vedado tocar, está agora à minha disposição. Fechada em casa, totalmente livre, dona do momento.

II.
Desde que vi aquele olhar vivo e brilhante dirigido a mim ao abrir aquela caixa, nunca mais tive sossego. Aterrorizava-me saber que naquele armário, na casa onde me encontrava, onde tinha de comer e dormir todos os dias, se encontrava aquilo, aquele olhar, aquele olho de uma vivacidade que parecia querer hipnotizar-me de tal forma que me fitava. Tinha de me livrar deste terror que se instalara em mim desde o dia daquela descoberta. Assim que me vi de novo sozinha em casa, e sem pensar, dirigi-me ao armário e retirei do fundo do mesmo aquela pequena caixa de metal com fotos antigas e documentos amarelados, retirando dentro dela, com a ajuda de um lenço e sem olhar, o motivo do meu medo, e deitei de imediato no lixo. Sensação de alívio. Finalmente livre daquele olhar que me atormentava.

III.
O meu pai sempre gostou de falar dos seus antepassados. De gente que nunca conheci, e da qual me tenta mostrar orgulhoso em esquema quem é quem, que parentesco tem de quem, nomes, locais, e muita coisa à qual tento mostrar-me interessada, mas à qual não consigo encontrar entusiasmo para apreciar. No meio da conversa oiço algo de alguém que tinha um olho de vidro. Um pânico interior gera-se em mim, como se algo gelado me percorresse o corpo por dentro à medida que tomo consciência da situação. Apercebo-me do meu acto impensado. Naquela caixa que continha recordações de antepassados, havia um pequeno objecto que tinha pertencido a alguém, que alguém pretendeu guardar, que tinha um valor muito especial para alguém. Aquele objecto cujo realismo me tinha assustado, por isso mesmo, por ser sua intenção ser o mais real possível, era uma peça guardada por motivos que agora me eram claros. Peça que… desapareceu!

24 - Operação Moelas (IX)...sim, está quase...



Moça roliça, porém resoluta, Cátia Vanessa decidiu que não seria um qualquer mal-encarado que a impediria de voltar à liberdade na companhia do seu Bigodes, pelo que, surpreendentemente até para si própria, pregou uma valente lambada no indivíduo, semelhante às que fornecia aos clientes do Silva quando se faziam esquisitos para pagar a despesa, suficiente para que o marroquino, por um lado, perdesse 2 dentes e uma lente de contacto, mas por outro, ganhasse um hematoma tamanho familiar no olho esquerdo e uma contusão ao bater com a cabeça num bidon, que o colocou fora do caminho.

Os dois fugitivos escaparam dali o mais depressa que puderam e Cátia deu a mão a Parménides para que passassem o umbral da saída. Juvenal corou, mas até hoje não foi possível apurar se isso se deveu à experiência carnal ou à excitação da corrida. Já no exterior, olhando em ambos os sentidos, não viram Jack em lado nenhum.
De repente, surgindo a grande velocidade, uma carrinha frigorífica branca, com letras vermelhas na carroçaria a dizer “Talhos Dona Rosa-A Chicha Mais Saborosa”, tentou dobrar a esquina sob o protesto dos pneus, que guincharam no pavimento até o veículo se imobilizar à frente dos dois. A janela do condutor desceu e dentro da cabine surgiu a cabeça de Bauer, que gritou:

- Subam! Não temos tempo a perder!
Passageiros acomodados, de novo chiaram os pneus quando Bauer pisou o acelerador, a caminho da tasca.
- Onde é que arranjou este transporte? - perguntou Cátia Vanessa, segurando o seu gato enquanto deslizava no banco corrido, após mais uma curva brusca.
- Quando estava no armazém, vi passar o reboque da polícia com ela atrelada, pelos vistos estava mal estacionada, e percebi que estava aqui a nossa hipótese de salvar o Silva.
- Deixe-me ver se percebi, a polícia autuou um veículo, ía a rebocá-lo e você foi lá pedi-lo emprestado?!
- Disse-lhes que era um assunto de segurança nacional...e pedi por favor.
- E eles entregaram o veículo? - perguntou Parménides a caminho do enjoo.
Bauer olhou pelo retrovisor e vislumbrou dois grupos de sirenes que, lá ao fundo, ganhavam terreno na perseguição à carrinha frigorífica.
- ...uhn, não exactamente!

Calcou de novo o acelerador e atravessou em linha recta um cruzamento com a destreza de um condutor indiano na hora de ponta em Bombaim, a mesma destreza que os outros condutores não tiveram, pois ouviram-se várias travagens prolongadas que acabavam com o som de metal a bater.
- Ouçam,- disse Bauer conferindo novamente o retrovisor e verificando que já meia divisão policial seguia no seu encalço – esta carrinha tem a solução. Lá atrás temos vários quilos de moelas, temos a receita, portanto, podemos prepará-las para que cheguem à tasca precisamente ao meio dia, quando começar o evento!
- Preparar as moelas onde? Aqui dentro, não? - interrogou Cátia Vanessa.
- Sim. Não se preocupem, eu tenho um plano.
- Eu também tenho um plano... poupança-reforma, mas só lhe posso mexer aos 65 anos e quero lá chegar viva! É a ideia mais estapafúrdia que já ouvi na minha vida, e mesmo que fosse possível, como as iremos fazer? Pois se a receita é secreta, não é suposto que a possamos ler...
- Ouça, não sei se o Parménides sabe cozinhar ou não, mas eu não sei, portanto o futuro da tasca está nas suas mãos. E não se esqueça do seu papel nisto tudo...ninguém tem de saber, entende?...Eu só quero sossego, posso esquecer-me de contar ao Silva se tiver, digamos, alguém que me lave os cortinados uma vez por ano. O que me diz?

Vanessa meditou e no seu íntimo soube que era a oportunidade ideal para se redimir do apoio que tinha dado ao plano de Al Mufada.
- Ok, eu faço as moelas – assumiu, não sem sentir um nó na garganta, enquanto pegava no papel da receita das moelas à Silva, com o cuidado devido a uma relíquia bizantina.
Em breve, pela primeira vez, alguém fora da linhagem Silva desvendaria um segredo com anos de história, de mistério, de suor, lágrimas e dores de barriga, algo que muitos tinham tentado alcançar sem conseguir. O nervosismo e a responsabilidade fizeram-lhe tremer as mãos, quando Cátia começou a ler o papel:
- Ingredientes...

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Tasqueiros e bastonários


A propósito disto aqui, lembrei-me desta história:

Uma empresa entendeu que estava na hora de mudar o estilo de gestão e contratou um novo Director. Este veio determinado a agitar as bases e tornar a empresa mais produtiva.

No primeiro dia, acompanhado dos principais directores e coordenadores, fez uma inspecção a toda a empresa. No armazém todos estavam a trabalhar, mas um rapaz novo estava encostado à parede com as mãos nos bolsos.

Vendo aí uma boa oportunidade de demonstrar a sua nova filosofia de trabalho, o novo director geral perguntou ao rapaz:

- Quanto é que ganha por mês?

- Trezentos euros, porquê? - respondeu o rapaz sem saber do que se tratava.

O administrador tirou os EUR 300,00 do bolso e deu ao rapaz, dizendo:

- Aqui está o seu salário deste mês. Agora desapareça e não volte nunca mais! Esta empresa não tem lugar para si!

O rapaz guardou o dinheiro e saiu conforme as ordens recebidas.

O administrador, então, encheu o peito e, orgulhoso da atitude que serviria de exemplo, pergunta ao grupo de operários:

- Algum de vocês sabe o que este sujeito fazia aqui?

- Sim Senhor - responderam admirados os operários - Veio entregar uma pizza...



MORAL DA HISTÓRIA:

"Há pessoas que desejam tanto mandar, que se esquecem de pensar"

domingo, 11 de outubro de 2009

24 - Operação Moelas (VIII)


- Então – concluiu Bauer após ouvir as explicações de Cátia Vanessa – quer dizer que isto é uma questão de concorrência, não tem ligações políticas?
- Claro que tem ligações políticas, sr Bauer! - disse um indivíduo alto e moreno, saindo da penumbra, juntamente com dois capangas armados – Quem é que pensa que vai financiar toda a campanha de reeleição de Aníbal Silva? Não se iluda, sr Bauer, tudo na vida é política e o encerramento da tasca do Silva é apenas um meio para atingirmos os nossos fins, assim também glorificando Alá. Palavra de Saihd.
- Mas isso não é justo! - argumentou Parménides.
- Cala-te infiel! Justo é o elástico das cuecas da tua mãe impura.
Parménides pensou que o indivíduo estivesse a falar com alguém fora do seu campo de visão, pois ele não se chamava infiel e sua mãe era uma senhora de bem que usava cintas adelgaçantes e não cuecas apertadas.

Bauer tentou soltar uma das mãos e, ao tentar, deu com o bolso traseiro de Parménides, onde repousava um inocente corta-unhas, que nas mãos treinadas do ex-agente, em breve se transformaria numa horrível e eficiente máquina de morte. Jogando tudo na psicologia, segundo a escola de pensamento de José Mourinho, Bauer tentou ganhar tempo:
- E o plano do Sheik Al Mufada é?...
Orgulhoso por poder mostrar a sua superioridade aos ocidentais, Saihd sorriu com desdém:
- Digamos que o Sheik está seguro que o presidente Silva vai ganhar e que também está seguro que, depois da reunião intermediada pelo primo do presidente, este não se irá opôr a dar um parecer positivo à construção de um shopping nos terrenos, actualmente considerados zona verde, do jardim Arqº Carrapatoso, a partir do qual estenderá uma rede de franchising de restaurantes de caracóis, permitindo branquear outras receitas...
Inebriado pelo seu próprio relato, Saihd não reparou que Bauer tinha sacado o corta-unhas de Parménides. Também não reparou que a lâmina do instrumento tinha dilacerado a corda que lhe prendia os pulsos. Nem reparou que Bauer tinha desembainhado a lima das unhas e contraído os músculos, num momento de concentração que antecedeu a tempestade.
Quando reparou, foi tarde.

Foram não mais de 30 segundos, onde parecia que o mundo tinha parado a sua rotação e a vida interrompido o seu curso, à excepção dos rápidos movimentos de Jack Bauer que provavam a razão de Einstein dizer que espaço e tempo eram relativos. Em menos tempo que leva o Ronaldo a trocar de namorada, Jack jogou-se para a frente, rebolando sobre si mesmo e retirando as amarras que seguravam as suas pernas à cadeira. Com o balanço, jogou o assento contra a cara do rufia à sua frente, o qual caiu inanimado de encontro a um tanque de decantação de caracóis, o qual tombou directamente no pavimento vários litros de baba dos animais.
Impulsionando-se como uma mola, Bauer jogou o seu peso para a frente e deslizou sobre a baba como de fizesse body-board, apanhando desprevenido o segundo vigilante, ao cortar-lhe a veia jugular com a lima do corta-unhas ao mesmo tempo que caía sobre Saihd, com o seu punho esquerdo a estabelecer contacto directo com o maxilar direito do marroquino.

Após colocar o seu adversário nos braços de Morfeu, correu a libertar Cátia Vanessa, que fez o mesmo a Parménides.
- Vamos embora, - disse Jack, aproximando-se da janela e inspeccionando o exterior – Sahid tinha a receita no bolso do casaco, já a recuperei e não tarda nada teremos mais companhia.
- Eu não me vou embora sem o meu Bigodes! Ele está ali dentro. - disse a decidida Cátia, apontando para um pequeno gabinete do outro lado do armazém.
Nesse instante, algo no exterior prendeu a atenção de Bauer, e ele soube que teria de agir rápido.
- Ok. Vocês vão buscar o gato, mas despachem-se. Encontra-mo-nos lá fora. - Dito isto, correu para o exterior do armazém.

Cátia e Parménides, que não via tanta acção desde que mudara a última vez a água ao aquário do seu peixinho vermelho, correram entre bidons e caixas para não despertar a atenção dos trabalhadores que se viam ao fundo do armazém. A jovem entrou de rompante no gabinete escuro com cheiro a oregãos e com as paredes cobertas de calendários que fariam corar Parménides, se ele não estivesse ocupado a desembaciar os óculos.
Reavido o felino, que dormitava num sofá velho, os dois saíram do gabinete em passo acelerado, que foi prontamente interrompido por um monhé de ar ameaçador, que lhes cortou a passagem.

domingo, 4 de outubro de 2009

Nature Boy

Nature Boy é uma canção escrita pelo compositor George Aberle, também conhecido por "eden ahbez", e popularizada por Nat King Cole em 1948. Desde então tem conhecido inúmeras versões, quase todas elas marcadas pela sua mensagem singela e inocente: a maior coisa que podemos aprender é apenas amar e ser amado. Eis um magnífico exemplo de como as coisas simples resultam em música.

There was a boy
A very strange enchanted boy
They say he wandered very far, very far
Over land and sea
A little shy and sad of eye
But very wise was he

And then one day
A magic day he passed my way
And while we spoke of many things
Fools and kings
This he said to me
"The greatest thing you'll ever learn
Is just to love and be loved in return"



Nature Boy, Ella Fitzgerald e Joe Pass:



Nature Boy, Karolina Pasierbska:



Nature Boy, James Last e Chuck Findley (trompete):






sábado, 26 de setembro de 2009

Temp(l)o de reflexão

A Tasca do Silva, sempre atenta às necessidades dos seus estimados clientes, decidiu inaugurar um espaço adequado ao dia de hoje, onde o freguês poderá, de uma forma calma e ponderada, meditar mais aprofundadamente sobre a escolha que deverá fazer amanhã.





Sendo este estabelecimento modesto e de dimensões exíguas, não se admirem caso o dito espaço tenha odores menos agradáveis, uma vez que também se destina à clientela que o usa exclusivamente para a defecação. A estes últimos, a gerência desde já agradece o favor de não se enganarem no rolo.

domingo, 13 de setembro de 2009

24 - Operação Moelas (VII)



O sol raiava já pelas altas janelas do armazém quando Parménides acordou, despertando com um travo amargo na boca semelhante àquele que lhe deixava o seu mata-bicho habitual carregado de testosterona – uma malga de Farinha 33.
Deu por si sentado numa cadeira, com as pernas amarradas aos pés desta e as mãos atadas ao encosto, sentindo um volume atrás de si.
- Sr Jack? Sr Jack, está aí?
- O Jack ainda está desmaiado, Parménides.
O jovem teve um aperto no coração, quando percebeu que estava a ouvir a voz de Cátia Vanessa!


* * *

- Meu S. Gregório, isto é terrível, uma tragédia, um drama, - o Silva andava de um lado para o outro do balcão, com as mãos na cabeça – um cataclismo, um drama... ah, não, esta já disse... eu não posso ficar de braços cruzados, eu não posso assistir ao fim da tasca sem nada tentar...
- Porque não experimenta fazer as moelas sem receita? - avançou o inspector Agostinho.
- Porque esta receita, inspector, é mais do que uma receita, é uma herança de família, tem passado de pai para filho desde que foi inventada pelo meu pai, possui fórmulas de delicado equilíbrio de ingredientes demasiado elaboradas para eu as saber de cor.

* * *
- Sim, fui eu que telefonei aos marroquinos para os avisar...- Parménides ouvia a explicação de Cátia Vanessa, igualmente amarrada a uma cadeira junto deles, e recusava-se a acreditar que um dos seus ídolos, a mulher que fazia as divinas pataniscas que o Silva vendia para fora, fosse capaz de tamanha malvadeza para com a tasca - ...tive de o fazer, para proteger aqueles que amo...
- Que história é essa? - perguntou Bauer, entretanto desperto.
- A verdade é que ninguém imagina os lucros fabulosos que o comércio de caracóis traz a quem domina o negócio. Os animais são comprados a € 0,80 o quilo e importados às toneladas para o mercado português, onde chegam às mesas dos cafés a um preço 16 vezes superior. O Sheik Al Mufada controla uma poderosa organização, sr Bauer, tem olhos e ouvidos em toda a parte e domina o mercado com mão de ferro, não admitindo que negócios como o da tasca do Silva lhe façam concorrência nos petiscos com uma receita de moelas.
- Mas o sr. Silva é tão simpático, coitado! - gemeu Parménides.
- Depois da organização ter raptado o Bigodes, o meu gato persa... – disse Cátia com lágrimas nos olhos – Eles ameaçaram capar o meu pobre bichano e não tive outra opção...
- Mesmo correndo o risco de levar o Silva à falência? - perguntou Bauer.
- Eu não podia fazer nada... e não pude suportar o sofrimento do Bigodes. Eu pensava que, no fim, mesmo que eu fosse despedida, poderia ganhar dinheiro alugando o Bigodes para inseminação, ele tem pedigree... Afinal, enganei-me, e agora querem também ver-se livres de mim! Estou tão arrependida...
* * *

Na sede do PITA:
- Tô? Silva? Tá tudo a andar, né? Claro, nem é preciso perguntar, o dr Aníbal faz questão de te cumprimentar em público para as fotos, já viste a publicidade, âhn?! O quê? Se podes servir peixinhos da horta? Mas que raio de conversa é essa, ó Silva?! Isso não pode ser, pah! As moelas têm uma imagem de força política que não se pode desperdiçar!... Agora cá peixinhos da horta... além do nome ser um bocado panilhas, isso remete para horta, não diz nada aos nossos eleitores, aqui ninguém tem hortas. Vamos lá a atinar, ó Silva, que isto não pode falhar, sabes que o dr. Silva quase que ia sendo agredido na última manifestação do 1.º de Maio... quer dizer, não foi bem agredido, mas ainda lhe vieram as lágrimas aos olhos... sim, tá bem, só chorou de um olho... bom, a bem dizer foi apenas um cisco...

domingo, 6 de setembro de 2009

Cardápio eleitoral da Tasca do Silva

Vale a pena ler e analisar com atenção os programas eleitorais dos partidos políticos. Eles são fonte inesgotável de ensinamentos que podemos utilizar em diversas situações, elevando substancialmente o nível do discurso e das práticas. Aqui na Tasca, por exemplo, os programas eleitorais estão a ser usados para renovar o atendimento. E esta acção começa já a dar frutos que nos parecem muito interessantes.

Eis um exemplo gravado em áudio na passada sexta-feira, quando entrou o primeiro cliente do dia, eram onze horas e cinquenta e dois minutos:

- Bom dia, já se pode almoçar?
- Ali no restaurante em frente ainda não pode almoçar, mas aqui sim.
- E que tem hoje que se coma?
- Garantimos a efectiva confecção de diversos alimentos, de forma a poder satisfazer as suas mais exigentes necessidades alimentares.
- E o que tem pronto a sair?
- Providenciamos uma vasta selecção de pratos tendo em vista vários regimes alimentares.
- Sim, mas diga-me alguns…
- Providenciaremos não apenas alguns e faremos um esforço para acompanhar os seus pedidos, seja qual for o prato que queira.
- E que pratos tem?
- As nossas propostas são ambiciosas, mas realistas.
- Por exemplo?
- Acompanhamos com especial atenção os PME, os pequenos e médios estômagos. Os micro e PME portugueses são parte essencial da sustentação dos sectores mais modernos e dinâmicos da gastronomia.
- Não é o meu caso, eu gosto de comer bem, em quantidade.
- Privilegiamos não só a quantidade, mas também a qualidade, tendo para isso feito um programa de modernização de toda a cozinha.
- Ok, traga-me a lista…
- As nossas prioridades não estão centradas em listas mas sim no reforço de um serviço inovador…
- Desculpe, não estou a perceber, afinal tem ou não algo que se coma?
- Os nossos objectivos não se confinam à comida, garantimos também um apoio completo à bebida.
- Isto é que é uma gaita! Olhe, acha que devo comer aqui ou no restaurante do outro lado da rua?
- Reforçaremos os mecanismos para criar condições que permitam ajudá-lo a tomar a decisão mais conveniente nessa matéria. Já comparou os nossos pratos com os do restaurante concorrente?
- Ainda não. Que pratos têm aqui, afinal?
- Os nossos pratos renovam a ambição de garantir uma competitividade sustentável assegurada por uma transversalidade de funções consolidadas no quadro de uma vasta…
- Desculpe, já não aguento mais e estou cheio de fome. Traga-me um bife grelhado com legumes cozidos.
- E para beber?
- Uma cerveja preta.
- Os seus desejos são ordens. Iremos trabalhar afincadamente para satisfazer o seu pedido nos próximos quatro anos.

sábado, 5 de setembro de 2009

Arroz xau-xau

Fazendo jus ao nome deste blogue, coisa que talvez nunca o tenha feito, porque sempre tentei guarnecê-lo com outro tipo de receitas – aquelas que acabamos por digerir todos os dias, mas que não vão parar propriamente ao estômago mas a outras partes do nosso organismo, partes essas que nem qualquer um possui, ou desconhece possuir, caso mais frequente este último, ou não vivêssemos numa sociedade sofredora de letargia cerebral – hoje decidi finalmente acatar o espírito tasqueiro e, assim, tentar surpreendê-los com um prato cujas iguarias vão fazê-los transportar por uma viagem que bem pode começar, caso sofram de falsas expectativas, num belo arroz de grelos, e acabar, caso caiam na realidade, num daqueles pratos culinários todos pipis, mas que na prática não nos alimentam convenientemente, aqueles a que agora fica bem apelidar de “gourmet”. A ver vamos.

Se há coisa que os meus Pais me ensinaram, ou não fossem eles pessoas oriundas de famílias de fracos recursos, foi a de que devemos tentar gostar um bocadinho de tudo, pois nem sempre havia a possibilidade de comermos aquilo de que realmente gostávamos. Bem sei o porquê de nos tentarem incutir tais valores, pois eles eram de outros tempos – os tempos em que era necessário ter estômago para tudo e mais alguma coisa, pois, pensavam eles, era preferível comer algo a ter a barriga constantemente a dar horas!

Pois bem, meus amigos, para quem não me conhece, esta é a altura ideal para desistirem da leitura deste post e talvez passarem para um qualquer blogue que se dedique à trica politico-partidária… ou talvez não, fica ao vosso critério, mas depois não digam que não vos avisei e que sou sempre o mesmo destroça corações.

Para os que ficaram, aqui fica uma receita que me recuso cozinhar, muito menos digerir:

- Arroz “alfinetada”;
- Ovos debaixo dos braços q.b.;
- 120 g de pseudo-jornalistas, que mais não são do que paus mandados de um lobby qualquer;
- 250 g de carne de “aves de rapina”;
- 150 g de carne de porca política;
- 100 g de gente que não se importa de ser afiambrada, desde que os meios justifiquem os fins;
- Nozes dos dedos picadas, de tantos murros se dar na própria dignidade;
- Sal e pimenta ao gosto de cada um;
- Água à medida daquilo que se quer “alagar”;
- Salsa (ou outro tipo de dança, principalmente aquela, a de cadeiras).

Queridos e amados Pais, por muito que eu goste de vós, que gosto, bem o sabeis, prefiro alimentar-me de outras coisas, nomeadamente as que me façam crescer como pessoa, em detrimento daquelas que só servem para encher o band(a)ulho… ou então morro orgulhosamente à fome.

Beijos, abraços… e xau-xau!

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

24 - Operação Moelas (VI)



Parménides contemplava ainda, com mágoa, a garrafa de tinto que jazia quebrada no chão, quando Bauer lhe pegou pelo braço e literalmente o arrastou procurando um veículo que lhe permitisse não perder o rasto do atirador. Providencialmente, a solução surgiu estacionada junto ao quiosque do parque, um Aixam branco, também conhecido por “mata-velhos” ou “papa-reformas”, mas que para Bauer era o veículo ideal, potente porém discreto, audaz todavia seguro. Um vidro quebrado e o assunto resolveu-se.

O sol descia no horizonte quando o Aixam ultrapassou as fronteiras do bairro, levando no seu interior um Parménides angustiado com o pensamento em sua mãe que, àquela hora, tricotava sem parar uma nova camisola de lã para o seu filho, aguardando, sem noção do tempo, pela garrafa de tinto que não iria chegar a tempo do coelho à caçador. A angústia do jovem herói era adensada pelo facto de estar cada vez mais longe do seu habitat, aumentando o risco de se perder, ao contrário de Paulo Portas quando abandona a liderança do CDS-PP, que acaba sempre por encontrar o caminho de volta para o Largo do Caldas.
Subitamente, o Aixam estacou numa esquina. 500m mais à frente, a Piaggio estacionou junto de uns grandes armazéns. O sujeito olhou em redor, certificando-se que não era seguido e apressou-se a entrar no edifício por uma porta lateral. O telemóvel de Bauer tocou e ele pô-lo em alta-voz.

- Jack? - era a voz do inspector Agostinho – surgiu aqui uma coisa estranha na análise de ADN da baba do caracol, que revelou características de uma espécie em concreto, Gros-Gris, ou Helix Aspersa Maxima . Estes caracóis são importados de Marrocos e distribuídos no nosso país em exclusivo pela Caracolex, empresa registada em nome de Amin Al Moufada.
- Então, ouve-me isto, - respondeu Bauer – estamos nos armazéns da Caracolex, em perseguição de um suspeito que se escondeu no edifício e eu vou ter de lá entrar. Consegues arranjar-me a planta do edifício?
- Sim, - respondeu o inspector após uns instantes de silêncio - já a estou a ver no meu monitor.
- Manda-me para o meu i-phone!
- Não dá, Jack. Aqui na tasca só há ligação dial-up e o Silva paga a Internet ao minuto. O ficheiro tem mais de 50 Mb, isto leva uma eternidade...espera! Tive uma ideia, vou imprimir isto tudo e envio-te por estafeta. Até já.
Bauer olhou para o relógio. Não havia tempo a perder e a sua missão era recuperar a receita das moelas, custasse o que custasse, e enquanto não a concluísse com sucesso, corpo e mente não descansariam um segundo.
- Cobre-me! - disse Bauer para Parménides, enquanto corria para fora do carro, curvado, em direcção aos armazéns da Caracolex. Parménides achou estranho que Jack já estivesse com frio, mas como gostava de cumprir o que lhe pediam, principiou logo a tirar o seu casaco de lã merino para o emprestar a Bauer, pelo que estranhou que ele tivesse saído do carro para ir correr.
- Deve estar mesmo com frio! - pensou Parménides, que decidiu ir atrás do agente.

Os dois chegaram à porta lateral do armazém, Bauer olhou em volta e entrou sorrateiramente, logo seguido por Parménides Juvenal. À esquerda, havia uma escada de metal, da qual Bauer galgou os degraus dois a dois, alcançando um patamar que lhe dava a visão geral do espaço abaixo – filas e filas de caixotes perfurados, cobertos de rede, esperavam o momento da expedição. Aqui e ali, empilhadoras circulavam transportando volumes de um lado para outro.

* * *

Tendo acabado o seu último novelo de lã verde-alface, a mãe de Parménides olhou para o relógio e inquietou-se com o tardar da sua encomenda para o jantar. Esperou que o filho não tivesse tido outro azar como da vez em que ficara com a braguilha trilhada na boca de incêndio (uma longa história). Pelo sim, pelo não, resolveu ligar-lhe para o telemóvel.

* * *

Bauer reparou num grupo de indivíduos que conversavam numa zona mais isolada do complexo. Entre eles, reconheceu o atirador furtivo. Voltou-se para Parménides colocando o indicador sobre os lábios e caminhou pela galeria metálica por forma a ficar mais perto do grupo e ouvir o que diziam.
- الجامعة العربية Moufada انتظار معرفة انباء عن ذويهم على وجه الاستعجال ، وعدم السماح لمزيد من التأخير في الخطة . (* em português: Al Moufada aguardar notícias com urgência e não admitir mais atrasos no plano.)
- Saihd للراحة. وباختصار ، والمخدرات ، والبنادق ، والملاهي ، لن يكون أكثر من الفول السوداني لهذه الأعمال. (* Saihd poder descansar. Em breve, drogas, armas, casinos não serão mais que amendoins perante este negócio.)

Subitamente, Jack ouviu atrás de si uma melodia vagamente familiar.
“Abram alas para o Noddy! Noddy! Com a buzina a tocar...”
Virou-se e viu Parménides atrapalhado com o seu telemóvel, que tocava e vibrava intensamente, surgindo no visor, com intermitências, a palavra “mãe”. Antes que se pudessem aperceber, estavam ambos cercados, manietados e, após uma súbita dor de cabeça, começaram a notar que o mundo à sua volta ficava cada vez mais negro, até que as luzes se apagaram por completo.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

A Mãe Natureza tem destas coisas


(Acabadinhos de serem "colhidos" do quintal do Silva! Lembra-me aquele "trava línguas" que aprendi em pequeno, quando me pediam para dizer, repetidas vezes e muito mas muito depressa, a frase: "Fui ao mar colhi cordões, vim do mar cordões colhi")

domingo, 2 de agosto de 2009

O que não lhe consegui esconder

Aprecio o ritual, como se o estivesse a ver pela primeira vez. Cada pormenor desperta em mim a curiosidade, uma ponte na imaginação infantil. Aquele pincel igualmente grande e pequeno, diferente dos que uso nas pinturas, e que costumo noutras alturas retirar da prateleira para brincar, neste momento encontra-se, uma vez mais, energicamente a criar uma espuma branca imensa no seu rosto. De seguida um objecto em forma de T passa com movimentos delicados e precisos, fazendo descobrir a pele por baixo da espuma.

Numa das idas à casa de banho reparo naquele objecto em forma de T, analiso-o tentando entender a sua função. Existe alguma sujidade retida na pequena ranhura superior, e num acto impensado deslizo o dedo indicador para a tentar retirar. Sinto dor, e de imediato surge uma gota enorme de sangue, que rapidamente é seguida de outra, e outra e a sequência torna-se rápida e interminável. Deixo cair o objecto no lavatório ensanguentado e fujo daquele local, daquela situação. Saio a correr para a sala e sinto a minha mãe vir atrás. “O que aconteceu?”, pergunta, enquanto procuro esconder a mão nas costas, sentindo o dedo quente, inchado, a latejar. “Nada!” respondo, tentando disfarçar o meu desconforto. Reparo nas manchas de pingos pelo chão e no olhar da minha mãe na minha direcção, mas sem ser para mim: para o que estaria no chão perto de mim.

Sinto-me aliviada pela sua presença, por ter percebido o que aconteceu. Porque ela tem sempre solução para o que desconheço.